Q ueria descansar uns dias no rancho do meu irmão que foi tentar a vida na América. Tocar sanfona, arejar a cabeça e jogar baralho com m...

Alexsandro Nogueira: À beira do trilho

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Queria descansar uns dias no rancho do meu irmão que foi tentar a vida na América. Tocar sanfona, arejar a cabeça e jogar baralho com minha tia que cuidava do local. Apanhei meu filho na escola, arrumei as malas e coloquei o pé na estrada. Na saída de casa, minha esposa tentou adiar a partida para o dia seguinte. Fui irredutível e ela ficou de bico a viagem toda.

Não sei onde estava com a cabeça quando trouxe essa mulher pra junto de mim. Até agora, não fui homem suficiente para colocar um ponto final nessa história. Enquanto isso, deixava a coisa rolar pra ver onde isso iria chegar.

Até o sítio, fomos em uma Kombi branca que meu irmão mais novo emprestou. Minha esposa abria as porteiras, metida em uma saia jeans desbotada e na cabeça um lenço florido de tom amarelado. Com um pacote de bolacha quase no fim, meu filho reclamava da demora e do calor dentro do carro.

Agarrado ao volante, eu acelerava nas paradas com medo da caranga apagar. Não era um veículo dos sonhos, mas dava para o gasto. Sacolejava nos buracos e mata-burros e nos deixava apreensivo dentro do carro, por causa da má conservação dos pneus.

Minha mulher só abria a boca pra reclamar da viagem e recomendar maior cuidado quando o gado interditava a estrada. Ela dizia que o ronco esfumaçado do motor faria mal as rezes.

Já bem pertinho do destino final, paramos em um bolicho pra eu fumar um cigarro e irmos ao banheiro. Meu filho reclamava de dores na garganta e escarrava na porta do comércio bem à vista de todos. Minha esposa não se conformava com os modos do menino e repreendeu o autor da imundície.

Eu no meu canto torcia pra eles se entenderem. Queria que a viagem demorasse, que o pneu furasse e que a gasolina acabasse. Enfim, faria qualquer coisa pra que algo os aproximasse. Mas percebia que pra eles isso era um sacrifício.

Já dentro das terras da família a chuva apertou. Chegamos em meio a um barreiro de terra vermelha. Minha tia nos esperava na varanda com a mesa posta. Eu de longe senti o cheiro do milho na manteiga e do café coado no bule.
Já na porta da casa começaram as novidades. A notícia quente ficou por conta da vinda do meu sobrinho que veio passar uma temporada com minha tia para se livrar das encrencas em Mato Grosso. A nota triste foi a embriaguez permanente do meu tio que deixava boa parte da renda vadiando no mesmo bolicho onde paramos na viagem. Revoltada com a situação, minha tia recomendou que rezássemos pela alma dele.

 Aquele lugar me libertava de qualquer dever ou preocupação. Logo me pus a pés descalços e descamisado a correr pelos campos em busca de chuva. Sentia a garoa forte que ardia os olhos e a força do vento que soprava o rosto.

Meu filho veio correndo atrás de mim. Disse que na ânsia de melhorar a pontaria com a funda, feriu três galinhas a pedradas. Minha esposa veio em seguida informando que o tio não nos queria mais ali, por causa da morte das aves.

Depois de uma longa conversa, contemporizamos o incidente. Prometi repor a perda dos bichos e coloquei meu filho a limpar a casa como sinal da minha autoridade em determinar obediência. Ficou tudo bem entre nós.

À noite nos reunimos para ouvir música. Toquei “Lua traga meu benzinho”, um suplício que compus quando minha primeira esposa fugiu de casa ao amanhecer e nunca mais deu as caras por lá. Só a revi em pesadelo: ora gorda, ora abatida e sempre no inferno. Custei a esquecê-la.

Depois do sarau, uma rodada de bisca na varanda pra agradar minha tia. Montamos as duplas, separamos as cartas e combinamos as jogadas. Conversas eram proibidas. Nenhum pio para não atrapalhar a concentração dos jogadores.

 Lá pelas tantas da madrugada, minha tia rompeu o silêncio, enquanto nos preparávamos para mais uma rodada. Quis saber do meu filho mais velho que já era homem feito e morava na casa da namorada.

Minha mulher apressou em responder a pergunta enumerando os defeitos do meu primogênito. O desqualificou em tudo. Do meu caçula, ela resumiu como um menino atrevido, esfomeado e de mau comportamento em casa e na escola. Não gostei e o bate boca pipocou noite adentro.

Nos ofendemos. Como disse poucas e boas a minha mulher, ela prometeu nunca mais chegar perto de mim. Diante de tantos absurdos, ficou decidido que não dividiríamos mais o mesmo teto. Era um ponto final em um relacionamento conturbado.

Pra encurtar o assunto, só recordo que fiquei perturbado com a briga e fui parar andando nos arredores do sitio com meu sobrinho a tiracolo. Num gesto desesperado, deitei no trilhos que beiravam a cerca da propriedade esperando o próximo trem sobre meu corpo. Era a única alternativa pra chamar a atenção da minha esposa.

De longe ouvi o apito do trem se aproximando. Antes do primeiro vagão apontar mandei meu sobrinho se afastar. Não estávamos em dia com as obrigações religiosas e no impacto, meu sangue poderia espirar no rosto rapaz.

Quando as maquinas dobraram a curva, percebi um braço franzino me puxar pra junto de si. Era minha esposa. Foi o maior berreiro. Coisa de filme. Alguém que surge no meio do nada e num gesto heroico salva o marido. Nos abraçamos.

Antes de retornarmos à casa, assistimos ao nascer do sol. Meu filho veio ficar junto de nós. Em seguida, minha tia apareceu. O mundo não iria acabar, nem a vida ia parar. Bastava só eu sentir a força da vida. Com o tio na varanda excomungando minha atitude nos trilhos, percebi que ao menos a família ficaria mais fortalecida.

jornalista



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