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DANTE FILHO: RECONHEÇO O ESFORÇO HERÓICO DOS ELEITORES DE LULA, MAS ACHO QUE DESTA VEZ NÃO VAI DAR...

 

Debate Lula e Flávio:"Si hay gobierno, soy contra"

Acho que vocês estão sentindo o clima pesado. Até domingo vai ser assim. Segunda-feira ninguém sabe o que será. É melhor ir direto ao assunto: há clara percepção de que Lula vai perder a eleição. As atitudes da militância do PT e grande parte do pessoal da chamada linha progressista da política fornecem material de sobra para revelar isso com clarividência total.

A intuição da derrota reveste-se em função da leitura subjetiva das ações desesperadas e contraditórias da campanha Lulista, revelando o abraço dos afogados, anulando sua capacidade de racionalizar o mundo com abstrações em torno de falsas esperanças de que é possível controlar o movimento da roda ladeira abaixo.

Os verdadeiros democratas sabem do que estou falando: a partir do debate entre os candidatos na Band, no último domingo, as movimentações nas redes, as mobilizações de massa nas praças públicas, a gritaria geral da militância, as elevações do nível de tensão do debate político, as cobranças pessoais por engajamento pelo "lado certo da história", exigindo declaração de voto, além das opções editorais da grande imprensa, os ensaios de golpe sugeridos nada sutilmente pelos membros mais ativos do STF, enfim, os sinais que nos permitem enxergar as diversas camadas do processo ora em curso, revelam o caráter disruptivo em andamento, seguindo a linha de calcificação do sentimento que pretende colocar o petismo fora do poder.

Não falo isso com alegria (nem com tristeza) porque aprendi a duras penas que os fatos são teimosos e quando o estouro da boiada começa é difícil evitar que um evento extraordinário abra-se sobre nossas cabeças nutrindo a esperança de que "algo ou alguém" vai aparecer para nos salvar.

Só que nesta hora aparecem os números. Pegue-se os levantamentos das mais diversas pesquisas, todas carregando consigo os mais diversos interesses, extraia daí as médias ponderadas, e analise com a frieza necessária, fora das bolhas dos militantes mais aguerridos, e perceba (na voz do silêncio) para onde segue o curso dos acontecimentos.

Se isso não bastar, busque o histórico das eleições presidenciais da chamada "Nova República" e veja como se comporta a massa de eleitores em momentos cruciais como este que estamos vivenciando.

Sim, é verdade, há um cansaço subjacente da sociedade; o presidente e seu governo não conseguiram convencer a cidadania de seus acertos; muitos erros vieram à tona, na esteira do escândalo do INSS e do Banco Master, que tonificaram inúmeros micro-escândalos, dentro de um contexto de crescimento da direita e seus satélites mais exacerbados, coroado pelo domínio sistêmico do STF, gerando assim um contravapor incontrolável que resulta numa campanha altamente polarizada, com Lula apresentando claros sinais de dificuldades cognitivas, com um entorno de serviçais que parece não compreender a semântica da realidade.

Os problemas multifatoriais (no campo interno e externo) terminaram desaguando na derrota do primeiro turno das eleições, levando o petismo emocionalmente às cordas. 

Flávio Bolsonaro, um político de segunda linha, conseguiu surpreender a cúpula do poder, elegendo bancadas legislativas expressivas e destronando lideranças históricas, sinalizando claramente que Lula não conseguiria governar com segurança e que o Supremo seria um permanente pomo da discórdia caso resolvesse manter o mesmo padrão de uso de excepcionalidades jurídicas, como a que vem praticando nos ultimos anos.

Claro que não há novidades na análise deste quadro. A imprensa e os grandes especialistas políticos têm sido exaustivos em diagnosticar os males do status quo. 

Também não espanta a soberba e os equívocos nas leituras de cenário do PT. O próprio desenvolvimento da campanha eleitoral demonstra que Lula não conseguiu sentir as mudanças de rumo daquilo que muitos tem chamado da pós-modernidade. 

O mundo mudou mas esqueceram de trocar os óculos para enxergar as transformações impostas pela intensa financeirização das relações humanas, com o surgimento de novas tipologias de classe social, advindas de grandes forças do trabalho precarizado, com noções renovadas e diferentes tons de cinza em torno do que significa liberdade e autonomia. 

Talvez por isso que o discurso de defesa da democracia pareça mofado. Talvez por isso que o apelo da soberania parece hipócrita. Talvez, por fim, que os valores da moral conservadora ganham espaço como força de resistência contra um Estado mais interventor e abusivo. 

Quando Lula reitera suas posições pró-estatizante não imagina a repulsa que isso gera nas camadas mais jovens da população. 

A história funciona em ritmos cíclicos. Gerar medo, cobrar posições ideológicas, usar abusivamente o poder, termina por gerar efeitos contrários ao que se espera eleitoralmente, mesmo com a sociedade dividida como está. 

Terminou a era dos consensos. O individualismo hobbessiano estabeleceu-se como elemento cultural que torna aquela velha frase uma verdade indosolúvel: "si hay gobioerno, soy contra".

A partir de agora entremos numa roda de oração ou procuremos um psicanalista. A roda vai girar...