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ALEXSANDRO NOGUEIRA: O VEXAME NÃO É MEU

 

Lula recebeu apoio da classe artístitica 
da chamada intelectualidade engajada

Nunca vi tamanha submissão em favor de um candidato como agora, nessa
campanha desesperada de Lula. Uma orgia de fake news, desinformação e
chantagem emocional barata comandada por centenas de artistas e intelectuais
brasileiros.

Como explicar esse fenômeno, essa servidão voluntária? Existem algumas pista e respostas.

Talvez a melhor definição para essa conduta esteja nas páginas de ‘Mente Cativa’,
obra seminal do poeta e ensaísta lituano Czesław Miłosz.
O livro merece ser lido, sobretudo porque seu autor veio estragar a festa de quem acredita na esquerda como portadora exclusiva das grandes virtudes políticas e democráticas.

Nesse particular, Miłosz tem autoridade para falar. Ele conheceu de perto os
mecanismos pelos quais os intelectuais se submetem ao poder e passam a justificar
aquilo que, em outras circunstâncias, condenaram. O problema não é apenas a
adesão a uma ideologia, mas a disposição de sacrificar a própria consciência em
nome dela.

Há, nesse comportamento, uma combinação de oportunismo, vaidade intelectual e medo do ostracismo. Suas predileções políticas acabam se transformando em monumentos ao vazio, à irrelevância e à estupidez.


Por que parte da classe artística age dessa forma? O pavor da irrelevância talvez sejam uma das respostas. Em certos círculos intelectuais, apoiar candidatos progressistasm funciona como uma espécie de salvo-conduto moral. O artista ganha prestígio entre os seus, frequenta os ambientes certos e preserva a imagem vituosa de intelectual do bem. Emm troca, aceita não enxergar o que deveria denunciar. A independência de pensamento passa a ser dispensável quando ameaça o conforto e o luxo.


Para não admitirem que venderam a própria consciência em troca de segurança, prestígio ou proximidade com o poder, artistas militantes desenvolvem teoriasn complexas para justificar a conivência com o poder. Convencem a si mesmos de quem a violência, a censura e os abusos são necessidades históricas temporárias, sacrifícios inevitáveis para a construção de um futuro melhor. A velha desculpa de que os fins justificam os meios ganha verniz acadêmico, vocabulário sofisticado e elogios.


Não é a primeira vez. Tampouco se trata de um caso isolado.


Antes de lerem Miłosz, aconselho aos leitores uma sessão de Mefisto (1981), filme de
István Szabó, disponível no YouTube. O longa mostra como e por quais motivos
artistas e intelectuais se acomodaram ao nazismo e ao fascismo, negociando a
própria autonomia em troca de reconhecimento, proteção e espaço. O protagonista não precisa se tornar um fanático para se comprometer moralmente. Basta que aceite, uma vez após outra, o preço cobrado pelo poder. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Não que isso alterasse significativamente o jogo. A política tem seus interesses, seus acordos e suas conveniências. O que deveria causar espanto é a facilidade com que pessoas que se apresentam como guardiãs da democracia encontram justificativas para relativizar princípios quando a corrupção e a ingerência pública vestem a camisa de seu partido. A democracia, para elas, parece uma ferramenta retórica:serve para condenar o adversário, mas se torna inconveniente quando exige coerência dos aliados.

O tempo costuma ser impiedoso com a classe. Os discursos passam, os governos acabam,asconveniências mudam de lugar. Ficam os registros, as contradições e a pergunta incômoda: quando a história cobrar explicações, quantos dessesm intelectuais ainda terão coragem de dizer que não sabiam?




Alexsandro Nogueira,
 é jornalista músico e escritor