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DANTE FILHO: SENTIMENTOS PRÉ-ELEITORAIS TRANSFORMAM DÚVIDAS EM ANGÚSTIA E HISTERIA


 
"O vazio que o vazio inunda". Esse verso está num poema de T.S. Eliot e sempre me vem à mente quando estou diante de situações conflitantes. 

Tenho estudado um pouco de teoria quântica e acompanhado um pouco as descobertas da astronomia moderna, com telescópios ultra-avaçados lançados no espaço profundo, acompanhando os movimentos de estrelas, galáxias e de buracos negros (além das especulações sobre a matéria escura) e vejo que a imagem criada por um poeta do começo do século XX consegue sintetizar numa frase a imensão incompreendida.


Ao mesmo tempo penso qual o sentido dos conflitos diários que enfrentamos (guerras, polarização afetiva, discussões raivosas nas redes etc) e chego à conclusão que somos formigas tentando compreender a língua do tamanduá. Somos arrogantes e histéricos quando estamos diante de pessoas que pensam diferente, nos chamam de burros (outros de gado), mostrando uma devoção fanática por polítcos ou lideres religiosos e empresariais, esquecendo-se que somos todos feitos da mesma matéria.

Sei que estes comportamentos disruptivos são apenas uma maneira de nos sentirmos vivos, driblando a opacidade de nossa existência, satisfazendo nossos desejos de poder, sem os quais estaríamos simplesmente vagando por aí em busca de justificativas para continuar seguindo sem rumo.

Por isso, muitos gurus de auto-ajuda nos aconselham a ter algum propósito. Nietzsche, no seu famoso livro "Genealogia da Moral" explica as razões pelas quais o homem inventou a atividade como mecanismo de sobrevivência. A pessoa inerte, vaga, irada, ressentida, que opera mentalmente sob signo do ódio já morreu e não sabe.

Foi Dostoiévisk que escreveu em "O Idiota" que a "compaixão é a lei mais importante e talvez a única da existência de toda a humanidade". Mas pergunto: alguém está vendo este sentimento por ai? Pontualmente, pode até ser, mas genericamente, nunca.

Engraçado, temos avançado exponencialmente nos campos da ciência, tecnologia, na produção de riquezas etc, mas estamos regredindo brutalmente no campo do humanismo, da cultura, da estética e da ética. Todas estas questões estão fartamente diagnosticadas, mas claudicam no momento em que se tenta impulsioná-las, dando um giro no parafuso. 

A ilusão da bondade humana, de um mundo melhor para todos, da redenção para construir uma sociedade mais justa, além de ser uma soberba mentira, é material para ser monetizado pela esquerda e pela direita. Aprendam: aqueles que criticam o capitalismo e o neoliberalismo são canalhas e cínicos.

Observem o quadro eleitoral do momento: Lula e Flávio Bolsonaro (os candidatos com mais chance) estão numa luta fraticida com suas militâncias sem dar a mínima para as futuras consequências que isso trará para o País. Suas militâncias estão em combate nas redes sociais num esforço cômico para converter os já convertidos. As pesquisas de opinião tem poderes oráculares.

Todos aguardando algum escândalo de última hora, com a torcida dividida de ministros da mais alta corte do País (alguns como Flávio Dino e Xandão em militância explícita), num jogo que combina tudo que é mais nojento na política: corrupção, nepotismo, clientelismo e patrimonialismo.

Claro que olhando do alto da montanha para este cenário só é possível ver o vazio. É o vazio inundando tudo: nossas mentes, nossa alma, nossos escrúpulos, nossas esperanças, nossos desejos mais legítimos, talvez ouvindo o eco daquelas palavras de Gilmar: "até a Máfia tem ética". 

Vejam o ponto a que chegamos. Mas temos que dar razão para ele, respirar fundo, chorar baixinho, até porque sabemos que não podemos explodir a Praça dos Três Poderes nem a ilha de Manhattan.