Dante Filho --  Na ultima quinta-feira, 15, viu-se nos corredores do poder um Capitão do Mato perambulando com olhar vago, meio pálido, q...

 


Dante Filho -- 

Na ultima quinta-feira, 15, viu-se nos corredores do poder um Capitão do Mato perambulando com olhar vago, meio pálido, quase em estado depressivo, silencioso como nunca. Numa conversa com assessores mais próximos o personagem comentou de cabeça baixa: não vamos chegar ao fim do Governo, está difícil. 

A cena foi descrita por um e outro, tudo, por enquanto, adstrita à famosa rádio servidor, instituição que aumenta, mas não inventa; multiplica, mas não amplifica. Veremos.

A tristeza do Capitão tinha uma razão de ser: acabara de sair a decisão unânime da Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), confirmando a  indisponibilidade de bens ligados ao governador Azambuja e seus familiares e uma empresa a ele vinculada, no valor de R$ 277 milhões.

Em qualquer lugar do mundo, era de se esperar que, diante de um fato desta magnitude, no dia seguinte este fosse o principal assunto da imprensa local, com fortes manchetes, explorando as várias facetas da notícia. 

Mas isso não aconteceu. Tirando alguns sites aqui e acolá, a pauta foi tratada com certo desprezo, além de minimizada nos dias seguintes. 

Tal comportamento não torna nosso jornalismo um exemplo positivo. Fica uma impressão de certa cumplicidade inadequada ou de aderência remunerada, no qual os interesses públicos são bem menores do que o fluxo de caixa que mantém a roda girando.   

Claro que não custaria os fundilhos de ninguém publicar uma notícia seca com o devido destaque, lembrando a  denúncia do Ministério Público Federal (MPF), apresentada em outubro de 2020, envolvendo Azambuja, os empresários da JBS, Joesley e Wesley Batista, o ex-secretário de Fazenda de e atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Márcio Campos Monteiro; além de outras 20 pessoas, que cometeram crimes de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. 

Os fatos ocorreram entre 2014 e 2016. Só que estão aí, vivos, podendo custar a cabeça de muita gente importante, que amargará perda de mandato, exclusão da vida política e até prisão.

Bastaria indicar os termos do  Inquérito 1.190/DF, com os indicadores de  provas obtidas na Operação Vostok, bem como as provas compartilhadas a partir da Operação Lama Asfáltica, acordos de colaboração premiada, quebra dos sigilos telefônico e bancário dos envolvidos,  para a mídia estar fazendo o seu papel e cumprindo com sua obrigação institucional. Nem isso.

A notícia inclusive é velha. Mas a decisão unânime do STJ é uma novidade que faz tudo pular  várias casinhas, mesmo porque o dia em que os bastidores desta história forem revelados, mostrando a movimentação de uma poderosa banca de advogados, políticos graduados com influência determinante no judiciário, inclusive na esfera ministerial dos governos Temer e Bolsonaro, se verá então que não foi uma decisão trivial.

Azamba teve, nesta decisão, seu buraco cavado alguns significativos metros. O STJ praticamente confirmou ( ressalte-se, por unanimidade) que realmente houve um esquema de corrupção envolvendo o pagamento de R$ 67 milhões em propina para Azamba e outros denunciados. Além disso, como contrapartida, os agentes públicos garantiram isenções fiscais e benefícios ao grupo empresarial JBS em valores que ultrapassam R$ 209 milhões. 

O governador sempre negou e insistiu na teses de que tudo foi uma conspiração, dizendo-se um homem honrado que cultiva os valores éticos na política. 

Quem conhece as profundezas da República de Maracaju sabe que este caso tão falado é apenas a ponta do iceberg. Outros estão girando nos MPs e estâncias judiciárias da vida. No final, se alguém se dispuser a fazer as contas verá que o buraco é tão profundo que talvez encontre terras japonesas.

O que impressiona é a frieza aparente com a qual essa turma segue adiante, agindo como se nada houvera, gastando horrores com propaganda, dando inclusive as mãos para receber apoio daqueles que se dizem puros, cristãos e imaculados. 

Mato Grosso do Sul é um bom lugar para se viver, uma terra de esperança, com potencial econômico fenomenal, mas está precisando de pessoas de espírito republicano que saibam diferenciar os recursos públicos dos privados. Só isso. O resto pode até vir por geração espontânea.


Dante Filho -  Tempos de incerteza: Fico imaginando o cenário que vamos viver em setembro de 2022, na reta final da campanha eleitoral mais ...


Dante Filho - 

Tempos de incerteza:


Fico imaginando o cenário que vamos viver em setembro de 2022, na reta final da campanha eleitoral mais nervosa desde a fundação da Nova República. As libélulas de sempre estarão agitadas, acreditando que luzes acesas são a porta do paraíso, sem saber, lógico, que quanto mais quente, pior. 

Claro, tem gente que acredita em bola de cristal. Olha em frente e imagina que o futuro será mera repetição do passado. Ou pior: acredita que o presente se congela. Ouse seja: os dias se repetem indefinidamente, ou, mais engraçado, que cada passo adiante ficamos apenas  no escuro, próximo do abismo. 

Não sei. Ou melhor: sei que não é assim, embora nos apeguemos à crença de que nos próximos 12 meses tudo confirme as previsões de hoje, sem muitas alterações, porque essa é a única maneira de nos sentirmos minimamente seguros diante das incertezas, da imprevisibilidade e das surpresas dos novos acontecimentos. 

Desenhamos nos céus crises, medos, caos, ao mesmo tempo em que somos advertidos da piora das coisas, mesmo sabendo que as nossas percepções sejam muito precárias para perceber as circunstâncias reais.

Nosso otimismo é sempre bombardeado com tintas fortes para acreditarmos no pior dos mundos, mesmo porque a natureza humana tem uma imensa dívida com o apocalipse, com a tragédia e com o deus-nos-acuda.

Lá na frente nos aguarda golpes políticos, conspirações tenebrosas, desemprego terrível, inflação incontrolável, recessão, fome, miséria crescente, enfim, coisas muito ruins e temerárias. 

Certeza? Essa é a questão. Muitas libélulas são categóricas: as coisas vão acontecer conforme o previsto, esquecendo-se apenas que o imponderável habita nossos dias tão turvados.

Os indicadores disponíveis dizem que o futuro está fechado. Quais indicadores? Aqueles divulgados pela imprensa com base em levantamentos do segundo trimestre, ou seja, num passado relativamente curto, embora a dinâmica do mundo real seja muito mais acelerada, não sendo possível mensurá-la no ponto exato dos momentos. 

Se eu fosse os coleguinhas tentaria pelo menos uma vez por semana imaginar como será o mundo nos próximos 12 meses. A eleição não será um passeio, com cartas marcadas como se deseja. 

Façamos um exercício de pular várias casinhas e depois olhar pra trás. Será que o que estamos pensando que os dados de hoje estará valendo na semana que vem? As digressões sobre política, economia, movimentos sociais, pesquisas eleitorais e comportamento institucional serão iguaizinhas?

Como se diz, haverá movimento das pedras. A própria dinâmica do processo induz a modificações constantes do jogo, a vida não é uma pedra, a carne humana é elástica, podendo se amoldar às suas circunstâncias imediatas. 

Devemos reconhecer que uma parcela privilegiada da sociedade consegue ter uma percepção sobre o andamento do jogo e antecipar ruídos e sinais. Capacidade de avaliação, intuição acurada, medo de não correr riscos, estofo para aprender com os erros - tudo isso pode ser somado para estabelecer um valor diferenciado quando a manada perde o rumo. 

Mas essas pessoas estão cautelosas. Sabem que o quadro atual será outro, mesmo porque a pandemia será provavelmente uma tênue lembrança e as expectativas serão diversas. 

Desde a década de 80, depois da ditadura, quando o Brasil passou a viver a permanente transitoriedade do poder que as mesmas libélulas ardentes se agitam antes da hora. O mundo mudou e elas permanecem as imutáveis. Não refletem, não se acalmam, não ponderam, e criam uma corrida maluca na cabeça, fazendo do ambiente uma realidade tóxica, acreditando,  que a polarização intensa nas redes terá a mesma força para fundar um outro País.

Não terá.  


Dante Filho - Análise política nos tempos de incerteza O texto-base do projeto de lei do novo código eleitoral, aprovada pela Câmara dos Dep...



Dante Filho - Análise política nos tempos de incerteza

O texto-base do projeto de lei do novo código eleitoral, aprovada pela Câmara dos Deputados, no último dia 09 (quinta-feira), devia ser melhor debatido porque o afogadilho sempre resulta em consequências desastrosas no futuro. 

Mesmo assim, pela votação (378 votos a 80) ficou claro que existe um consenso entre os parlamentares para que as regras gerais sejam estas que foram inscritas no pacotaço que agora segue para o senado, com a promessa de causar bastante polémica. 

Um dos pontos de divergência que tem sido martelada pela imprensa é sobre as pesquisas eleitorais. É curioso que, de cara, as críticas estão insistindo em associar o substantivo feminino "censura" aos levantamentos estatísticos das escolhas dos eleitores para as eleições do próximo ano. 

Claro que estão forçando a barra, pois a nova lei (se for aprovada como está) não prevê ato censório strictu sensu, mas apenas imposição de limites na divulgação dos resultados, permitindo que elas só possam ser divulgadas até a antevéspera da eleição. O mundo não vai acabar por conta disso.

Existem países, por exemplo, que permitem que pesquisas só sejam divulgadas 15 dias antes do pleito; outros, uma semana anterior ao pleito, enfim, não existe uma maneira consagrada que satisfaça ao mesmo tempo a classe política e os institutos de pesquisa.

Outro ponto polêmico: quando um instituto realizar uma pesquisa e levá-la ao conhecimento público deve-se informar o percentual de acerto nas últimas cinco eleições anteriores.

De fato, essa regra é um exagero. No fundo, ela revela que a classe política desconfia dos levantamentos, pois sabe que a justiça eleitoral não tem corpo técnico nem estrutura para validar com rapidez a aprovação oficial de uma pesquisa eleitoral do ponto de vista técnico. 

No final, trata-se apenas (com raras exceções) de formalismo, o que tem feito com que pesquisas enfrentem cada vez mais desconfianças da sociedade. Se o assunto for potencializado por polêmicas, o negacionismo em torno dos institutos aumentará, o que terminará fomentando a indústria de fake news com centenas de números fajutos, criando assim um ambiente de descredibilização geral. 

Com isso, os institutos mais tradicionais e mais equipados perderão uma fatia de confiabilidade, mesmo porque as últimas eleições têm-se demonstrado que, na apuração dos votos, os percentuais de acerto tem caído com muita frequência. Atualmente, países como os Estados Unidos têm estudado o assunto para criar novas metodologias de aplicação de questionários para melhorar os índices de acertos.

Ademais, no caso do Brasil, há uma tendência cultural de se votar no vencedor apontado pelas pesquisas, com o prosaico argumento de "não se perder o voto". Estudos feitos sobre esse fenômeno apontam que cerca de 10 a 12% dos eleitores usam esse critério para escolher, algo que pode fazer diferença numa disputa apertada.

O dado concreto, porém, é que pesquisa, informação e conhecimento são instrumentos de poder. A Câmara dos Deputados votou uma lei para mitigar a credibilidade das pesquisas e potencializar a desinformação. Mas não há censura porque não há proibição de se realizar e divulgar os levantamentos durante o processo eleitoral. 

O que há, na verdade, é um movimento político que se justifica no fato de que o eleitor é manipulável por números contra a ideia de que toda informação ilumina as escolhas democráticas, tornando as pessoas mais libertas na hora de votar. 

Este debate, contudo, não é tranquilo. 

Dante Filho  Leitura Política nos tempos de incerteza -   E u sei que muitos estão pensando que Jair Bolsonaro vai dar um golpe. Ele começo...



Dante Filho 

Leitura Política nos tempos de incerteza -

 Eu sei que muitos estão pensando que Jair Bolsonaro vai dar um golpe. Ele começou a comer pelas bordas, criando expectativas, naturalizando as evidências, vitaminando seus apoiadores fanáticos e, agora, no último dia 07, deu uma bela mordida, comendo metade do bolo. 

Ninguém está tranquilo. Pelo menos aqueles que desejam viver num País democrático, que reconhece que as instituições têm problemas, mas que podem melhorar sem radicalismos nem maluquices. Mas a cabeça do bolsonarismo funciona de outra maneira. Parece que esse pessoal ficou na estufa anos e anos e guardou tantos ressentimentos que agora deseja que tudo aconteça na base do sangue, suor e lágrimas. 

Se existe alguém que acha que nada vai acontecer, pode acreditar que já está acontecendo.

O Brasil tem uma sociedade complexa e diversa. As demandas setoriais de cada pedaço da sociedade não cabem nos limites do Estado. Os conflitos se avolumaram demais nos últimos anos. E o Judiciário não tem capacidade, sozinho, de dar respostas a tudo que lhe atiram no colo. 

É verdade que o STF (Judiciário, por extensão) tornou-se com o tempo muito arrogante, até por causa da tibieza do legislativo em solucionar problemas que lhe cabia, toldado pelo oportunismo, populismo e ganância. 

O Executivo durante muito tempo transformou-se numa máquina de corrupção e numa fonte para satisfazer desejos ilícitos. Depois que o Supremo deu um salvo conduto para Lula correr livre, leve e solto para disputar as próximas eleições, ficou mais do que evidente que os escrúpulos foram mandados às favas e tudo se transformou em jogo político.

O Governo brasileiro tornou-se assim uma arena de disputa. Ficou evidente que não há virgens nesta casa de tolerância. E que a regra é mesmo a polarização raivosa e que a "democracia" é a exceção que justifica qual o melhor enquadramento das narrativas para conquistar as mentes e os corações dos brasileiros. 

A imprensa - não havendo alternativa à vista para calibrar a confusão reinante - também deixou o campo da racionalidade objetiva e tornou-se estuário de militância, colocando-se no quadrante da pró-democracia, antagonizando o autoritarismo de Bolsonaro, distraindo-se do fato de que, paradoxalmente, isso só tonifica o bolsonarismo como elemento duradouro do processo político. 

Ontem, apressadamente, muitos analistas correram a dizer que o Governo tinha acabado, que o impeachment era uma linha reta e que Bolsonaro derretia a olhos vistos. Como se diz nas redações de jornais, não devemos brigar com imagens, ou seja, tinha muita gente nas ruas para que alguém faça beicinho e corra o risco de fazer marola neste momento delicado. 

Vejo muita gente afobadinha. Sim, pode acontecer de tudo, inclusive nada. É preciso esperar que haja decantação. Mas uma coisa é certa. O Poder Judiciário precisa fazer uma autocrítica. O Ministro Alexandre de Moraes precisa parar de interferir em briga de bêbado. O Deputado Arthur Lira e o Senador Rodrigo Pacheco devem tentar fazer uma grande concertação para tranquilizar o País e ajudar dar rumo na economia. Os dois estão parecendo bobos da corte. 

Não esperem nada de Bolsonaro, porque daí só vem lama e caos. Ele não quer solução para o Brasil. Ele quer salvar a pele, fazer uma confusão e gritar "pega ladrão", que, no caso é o Lula. Se conseguir se reeleger, ele terá dado o golpe; se não, ele tentará na bala. Enfim, ele é o cavalo louco que não tem nada a perder.

  Dante Filho -   Análise politica -   O Campograndenews publicou uma nota sobre a passagem da Ministra da Agricultura Tereza Cristina, nes...

 



Dante Filho -

 

Análise politica -

 
O Campograndenews publicou uma nota sobre a passagem da Ministra da Agricultura Tereza Cristina, neste final de semana, no Bairro Nova Lima, em Campo Grande, para inaugurar uma unidade do Sebrae.

Seria mais um ato de campanha eleitoral, mas o site registrou uma situação curiosa. Tereza chegou atrasada ao evento (preparado especialmente para ela), fez um discurso confuso, trocou o nome do prefeito da Capital e mostrou-se irritada com a imprensa.

“Ao ser questionada se iria aos atos de 7 de setembro, ficou muda. Não quis responder apesar da insistência do Campo Grande News e foi retirada às pressas do local pelo diretor-presidente do Sebrae, Cláudio Mendonça”, escreveu o site.

O Presidente Bolsonaro não economiza elogios à sua Ministra do Agronegócio. Outro dia mesmo, afirmou que “ela vale por dez”. É fato que Tereca representa um dos setores economicamente mais avançados da economia brasileira, responsável pelo empuxo do PIB. 

O problema é que, ao mesmo tempo, parcela ponderável do agro, representa politicamente o setor mais conservador e atrasado da sociedade brasileira.

Quem acompanha a história pessoal e política da Ministra sabe que ela nunca conviveu bem com ambivalências. Sua relação no PSDB e PSB – todos sabem – nunca foi marcada por adesão partidária e ideológica. Ela se pauta por conveniências pessoais. Hoje ela está no DEM, amanhã, quem sabe.

Tanto com os tucanos como com os socialistas ela conviveu com a ameaça permanente de expulsão. Sua natureza carrega a necessidade de obedecer a vários senhores ao mesmo tempo, principalmente aqueles que têm muito dinheiro, a exemplo de Joesley Batista, da JBS.No fim, ela quer se dar bem, não importa como.

Quem teve oportunidade de acompanhar as lifes de Bolsonaro com a presença da Ministra pode perceber que, durante as falar malucas do presidente, ela parecia uma esfinge, não movia um músculo nem se expressava com o olhar. Ela se comportava como uma estátua de cera e, por sorte, a imprensa sempre foi generosa, nunca fazendo associações negativas nem folclóricas sobre essa performance.

Tereza pertence a uma das famílias mais “aristocráticas” de Mato Grosso do Sul, com proeminência na política nacional desde os anos 40 do século passado, no antigo Mato Grosso, com origem numa linhagem oligárquica que remonta ao final do século XIX. Enfim, Tereza Cristina, de alguma forma, sempre esteve no centro do poder, embora uma vez tenha tentado ser prefeita do pequeno município de Terenos, próximo à Campo Grande (onde a família ainda tem uma pequena propriedade rural), tendo sido derrotada por pequena margem de votos.

Quando adolescente, Tereza era motivo de fofocas das moças de classe alta de Campo Grande porque toda a viagem que anualmente fazia à Europa e aos Estados Unidos ela pegava de empréstimo roupas e luvas para o inverno rigorosos dos lugares que visitava e nunca mais devolvia. Ninguém falava nada, porque, afinal, era “gente importante”.

Mas essa questão trivial nunca foi assunto que merecesse atenção, pois não se atribuía atos menores ao caráter de pessoas de alta classe. Tomar o que é do alheio confere honra ao ludibriado, reza a lenda local.

Isso mudaria significativamente quando os pais de Tereza faleceram e ela se tornou inventariante do espólio. Como tudo correu em segredo de justiça muitos rumores surgiram na época entre seus irmãos, com acusações de falsificação de assinaturas, apropriação indevida de bens móveis e imóveis, enfim, aquelas coisas que fazem com que as famílias infelizes sejam infelizes cada uma à sua maneira.

No governo de André Puccinelli Tereza assumiu a pasta da Agricultura na chamada cota do tucanato. No entanto, quando o PSDB rompeu com o MDB numa rumorosa decisão, devendo em seguida fazer a entrega dos cargos ao partido no poder, ela tergiversou e fincou o pé. Afirmou que ficaria com André, mas não deixaria o PSDB. 

Aí abriu-se o processo de expulsão, que não foi concluído porque ela foi constrangida a tomar uma decisão, ficando com o cargo e filiando-se a um partido de esquerda (PSB). Também não durou muito.

Mas essa não foi a única saia justa deste período. Defendendo interesses de grandes empresas do setor agropecuário por benefícios fiscais vantajosos, Tereza enfrentou a ira do secretário de Fazenda à época, Mário Sérgio Lorenzetto, que uma vez a expulsou da sala quando ela acompanhava o presidente de uma companhia de esmagamento de grãos em uma audiência, chamando-o de “sonegador”.

Uma das mais notáveis características pessoais da Ministra da Agricultura em Mato Grosso do Sul – cujo status agora confere a ela a fama de intocável – são seus movimentos dúbios. “A palavra dela vale o mesmo que uma nota de três reais; ela promete uma coisa hoje, amanhã muda de ideia, é difícil confiar”, comenta um prefeito do interior, com pedido obvio que seu nome não seja citado.

O grande problema de Tereza agora é o fato de que a polarização acentuada da política a obrigará a tomar posições. Ela não se sente confortável com a pauta de Bolsonaro. Mas pretende ficar no cargo até o último momento para impulsionar sua candidatura ao senado, num acordo que abrange, em Mato Grosso do Sul, o PSDB, PT, PSD, PDT, MDB e quem mais couber. Alguns pretendentes ao cargo desistiram porque acham que será difícil enfrentar a máquina que Tereza vai colocar nas ruas para ter uma votação estrondosa, capaz de alavancar sua chegada ao Governo do Estado lá na frente.

Mas, projetos políticos à parte, ela não sabe o que fazer com o 7 de setembro. Se for para as ruas atendendo à conclamação do Presidente abre uma frincha para o surgimento de algum outro candidato dizendo-se do campo “democrático” contra as candidaturas do bolsonarismo. Se não for, poderá atiçar os fanáticos do presidente, que poderá entender nesse gesto traição, gerando desconfianças sobre qual a extensão de confiança que Tereza merece.

Outro ponto que preocupa o entorno da campanha da Ministra é o mistério que ronda a sua relação com a ex-apresentadora de TV Bia Arraes, que, conforme comentários do famoso rádio corredor, teria empurrado dezenas de nomeações de amigos e parentes, com salários razoáveis, para dentro do Governo do Estado.

Enfim, Tereza pode até imaginar que terá uma campanha fácil pela frente. Mas esqueceu que neste mundo cada dia tem a sua agonia. Uma palavra errada, um gesto equivocado, um silêncio explicado, tudo entra no balanço do secos & molhados, com resultados imprevisíveis.

Vamos esperar dia 7.

  Dante Filho* Reflexão política Estamos em setembro de 2021 e parece haver uma opinião majoritária entre políticos e especialistas de que a...

 



Dante Filho*


Reflexão política


Estamos em setembro de 2021 e parece haver uma opinião majoritária entre políticos e especialistas de que a consolidação de uma terceira via nas eleições do próximo ano tende ao fracasso. 

Pesquisas sucessivas apontam que a polarização entre Lula e Bolsonaro petrificou-se, mesmo porque interessa a ambos cultivar este antagonismo, fomentando uma crença de que hoje somente estas duas candidaturas formatam um consenso no inconsciente coletivo, representando o pensamento médio do brasileiro. 

Certamente, o desenho de cenário sobre como os fatos se sucederão daqui pra frente indica que estamos fadados a uma inescapável decisão no futuro. Muitos comentam que o próximo 7 de setembro vai estabelecer numa linha divisória que determinará os caminhos sentimentais que vamos percorrer até o dia da eleição, em 2022. 

Acredito que, depois do glorioso Dia da Pátria, o campo das especulações estará em aberto. Vejo que a imprensa – que devia ser a bússola pela qual nossa orientação estaria relativamente segura – foi engolfada pelos males do tempo, perdendo a capacidade de servir de guia para refletirmos sobre a realidade imediata. 

A nós, jornalistas e curiosos amadores, resta buscar as fontes primárias, conversar diretamente com as pessoas nas ruas, perscrutar comentários aqui e ali, ouvir especialistas, políticos, enfim, ir acrescentando dados empíricos para filtrar elementos imaginários que consubstanciem uma opinião relativamente acertada dos acontecimentos. 

Tempos atrás, lendo um ensaio do livro primeiro de Montaigne, ele observou que pessoas simples, pouco instruídas formalmente, são as que dão testemunhos mais verdadeiros sobre as coisas da vida, pois apesar de as “pessoas finas observarem muito mais cuidadosamente [os fatos] elas glosam suas opiniões (...) para fazerem valer sua interpretação e torná-las convincentes”.

Na prática, sou inclinado a concordar, embora aceite o fato de que a pandemia restringiu totalmente o nosso ir e vir para fazer contatos com as pessoas, dificultando a compreensão experimental do fenômeno político. 

Além disso, percebo um refluxo de manifestações abertas de preferência eleitoral, talvez por conta da agressividade dos grupos polarizados. 

Claro que quem já escolheu Lula ou Bolsonaro tem uma situação mais confortável. Eles podem ir à feira virtual tentando convencer o eleitorado a escolher seu candidato, ou, no caso do Lulismo, impor uma definição na base do (falso) dualismo entre democracia versus autoritarismo. 

No momento, os chamados “isentões” são atacados em duas frentes. A primeira, a de não encontrar na disputa um candidato fora do esquema do mainstream; e a segunda, a de serem constrangidos a ficar entre os dois pólos, tendo que fazer uma opção forçada por conta de uma estratégia pesada nas redes sociais que envolvem diversas camadas de formadores de opiniões. 


Olhando do alto os índices de várias pesquisas, com suas variações no tempo e cruzando com os fatos políticos cotidianos, percebe-se que as maiorias silenciosas ainda não se definiram, mesmo porque todos os nomes não estão postos oficialmente, configurando assim o que, afinal, estará impresso na cédula e quais campanhas ganharão as ruas, com quais características. 

Só com esta fervura (mídia, cobertura, debates etc) saberemos se existe viabilidade de surgimento de uma terceira via. Em minha opinião, é possível. Na verdade, em política tudo pode acontecer. Coloco as barbas de molho. E espero.


PS- Um exemplo ilustrativo: há tempos venho acompanhando as eleições na Alemanha. Sei que não há parâmetro de comparação com o Brasil, mas há três meses o Partido Verde era imbatível. O Centro e a Direita viviam o ocaso a despeito da popularidade de Angela Merkel (que está deixando a vida política). A última pesquisa, porém, mostrou o PV caindo - e em terceiro lugar. O que aconteceu? A maioria da sociedade concluiu que a proposta econômica dos verdes era irrealista, para não dizer outra coisa.



 *jornalista e escritor


Dante Filho Quando eu era jovem, puro e besta participei como mesário e presidente de mesa de votação e apuração de várias eleições. Nos diz...



Dante Filho

Quando eu era jovem, puro e besta participei como mesário e presidente de mesa de votação e apuração de várias eleições. Nos diziam que era uma chance honrosa de participarmos de um momento cívico importante, no qual éramos convocados para executar um trabalho voluntário que levava geralmente de 3 a 4 dias, das 8 até depois das 23 horas, dependendo dos problemas encontrados nas urnas – o que acontecia frequentemente. 

Na época eu reclamava muito não só porque não tínhamos praticamente o direito de escolha e o trabalho era estafante, exigindo esforço, concentração e tolerância para com aqueles que não se conformavam com os resultados finais das urnas. Muitas vezes, éramos acusados de favorecimento, o que exigia recontagem, além das interpelações agressivas dos candidatos e fiscais de partido.

O cenário da apuração era uma mistura de celebração coletiva com bagunça festeira: a justiça eleitoral instalava centenas de cidadãos munidos de autoridade provisória num ginásio esportivo, formando bancadas com carteiras escolares, e ali, neste ambiente improvisado e precário, contávamos manualmente voto a voto, num esforço contábil para que não houvesse dúvidas no final. Sempre havia.

O lugar se transformava numa verdadeira zona de guerra. Milhares pessoas (servidores do judiciário, policiais, juízes, promotores, fiscais dos partidos, candidatos, jornalistas, curiosos etc, etc) acompanhavam o processo como se estivéssemos numa final de copa do mundo. Muito barulho, muita expectativa e muita tensão. Tinha lá sua graça e emoção, mas posso afirmar que o resultado final era sempre carregado de fraude e artificialismo. Aos perdedores, o inconformismo; aos vencedores, o escárnio e a pecha de ladrão.

Nós, os apuradores, éramos o centro das atenções e das vilanias. Na mesa, em pouco tempo de interação, sabíamos acerca das preferências eleitorais de cada um, mas a vigilância era intensa, sendo conveniente fazer a contagem da melhor forma, sendo correto sempre, sob risco de impugnação da urna e evitar horas perdidas para recontar tudo, fazendo os números bater com o mapa da urna. 

Por várias vezes, pra melar o jogo espertinhos jogavam cédula fora ou as engolia. Não era fácil.

Mesmo assim, a camaradagem entre os apuradores que acabava se criando entre os apuradores durante os dias de trabalho, fazia com que todos levassem alguma falha na vista grossa, principalmente quando se tratava de preferências pessoais. "Deixa eu passar um voto por debaixo dos panos, afinal o candidato é meu amigo..."

Havia divergências por filigranas, lógico, pois a desconfiança de fraude era geral e assim, volta e meia, havia gritos, sopapos e intervenção policial.  

Os votos majoritários eram de fácil apuração. O eleitor marcava com um xis num quadro impresso na frente do nome do candidato, bastando, dessa forma, separar nominalmente os votos e fazer a contagem final. 

Ainda assim, nem sempre a cédula vinha marcada corretamente. A identificação do voto era colocada erroneamente ao lado ou em cima dos nomes. A maioria do eleitorado ficava perdido diante de um papel oficial repleto de marcações e regras na quais ele teria que preencher sem rasuras. Estamos falando de eleição em Campo Grande nos anos 80. Imagine o interiorzão, onde todos se conheciam, eram amigos e vizinhos, parentes etc. A fraude fazia festa...

A rigor, os votos preenchidos incorretamente (a maioria) devia ser, por lei, anulados, mas os juízes instruíam os mesários para que avaliássemos a “intenção do voto”, formalizando um consenso sobre sua validade ou não. “Olha esse voto, o cara escreveu Tonhão do Tiradentes no canto da cédula, vamos ver se tem algum candidato com o nome de Antonio ou Tonhão que mora no Tirandentes...”. Se tivesse, o voto era validado. 

Legalmente era errado, mas o que se há de? Estamos no Brasil.

Na contagem dos votos dos candidatos proporcionais (vereadores, deputados, senadores)  o drama social sobressaia como a concretização da metáfora de nossa pobreza estrutural. 

O eleitor podia escrever o número ou o nome do escolhido, ou ambos. Ali é que nos deparávamos com a realidade brasileira. Na verdade, com a tragédia da democracia, com grande número de eleitores confusos, pouco alfabetizados, sem nenhuma familiaridade informativa de como proceder na chamada cabine indevassável, sem poder solicitar esclarecimentos aos mesários, fazendo vir à tona, por meio das cédulas preenchidas com garranchos, riscos obscuros, às vezes palavrões, em hieróglifos secretos, o retrato sem retoques de nossa sociedade caótica, sem instrução, que escolhia candidatos por mera formalidade, sem compreender a extensão de seu gesto. 

Para um jornalista iniciante na carreira era uma experiência gratificante, pois podia verificar ao vivo, sem filtros, de forma transparente, quem era o/a eleitor(a) brasileiro (a). Era um horror. Mas era este o País que tínhamos. 

Em dois pleitos eleitorais fiquei treinado na decifração de escritas enigmáticas. Passei a orientar inclusive juízes na interpretação daquela maçaroca que se chamava “intenção do eleitor”. Às vezes o cidadão rabiscava números e nomes que demandava horas e grupos inteiros para se chegar à uma conclusão. Outras vezes decidíamos validar um voto esquisito para beneficiar candidatos obscuros, com chance zero de se eleger. Afinal, tínhamos coração.

O voto manual em cédulas era o sepultamento de qualquer noção de democracia. Se fossemos rigorosos na apuração e cumprir a legislação como mandava o figurino mais de 70% dos votos eram anuláveis. Este era o fato. Que piorava com os longos dias de apuração e anuncio dos resultados, que sempre terminava em judicialização e polarização duradouras.

Claro, com o voto eletrônico isso acabou. Acho que o sistema passou a ajudar o eleitor na hora da escolha, não somente pela simplificação do sistema, como pela rapidez da divulgação dos resultados. Posso dizer que também ajudou a encobrir a tragédia de nosso semi-analfabetismo, a pobreza cultural, a falta de esclarecimento, não permitindo que possamos mais fazer, a cada eleição, uma radiografia de nosso subdesenvolvimento. 

Enfim, em tudo há ganhos e perdas. Olhando para trás, acho que o voto eletrônico foi um passo à frente. Se existe fraude ou não há aí um campo de incerteza, mas acredito que as eleições sejam mais limpas, mais seguras, menos caóticas do que eram no passado. 

Se acho que é o caso de imprimir comprovantes para efeito contábil e mudar radicalmente a estrutura que funciona hoje? Esta discussão é extensa, demorada e cansativa. Acho que vamos andar em círculos. Parece que o Bolsonarismo deseja perpetuar uma zona espectral em nossa realidade institucional. É cansativo. Prefiro voltar a assistir filmes da Disney...


    Um mistério ronda a política sul-mato-grossense. Por onde anda Murilo Zauith, o vice-governador do Estado, figura chave do próximo proce...

 


 Um mistério ronda a política sul-mato-grossense. Por onde anda Murilo Zauith, o vice-governador do Estado, figura chave do próximo processo sucessório estadual?

Ninguém sabe, ninguém tem uma informação confiável. Uns falam que ele, após contrair o corona vírus, foi internado num hospital em São Paulo e de lá nunca mais saiu.

 Amigos (nunca identificados) dizem que Murilo se recupera bem e logo estará de volta. Há quem diga que ele está plenamente curado e que está em isolamento em Miami, onde tem residência. Outros comentam que ele está curtindo a vida numa ilha paradisíaca na Grécia. 

Enfim, há versões para todos os gostos. Claro que Murilo, como funcionário público graduado, substituto natural do atual governador em caso de vacância, devia manter minimamente informado, por meio de boletins médicos regulares, toda a população de seu Estado. Afinal, pelo que se sabe, ele está na folha de pagamento do setor público e, por isso, deve satisfações àqueles que o elegeram. 

Não se trata de uma questão de foro íntimo. O Vice-governador não é qualquer pessoa. Se ele está com problemas de saúde, em qualquer sociedade de base republicana, deve ser dado o direito básico de que todos saibam os fatos concretos, pois, caso o contrário, ninguém poderá reclamar quando se aludir ao Mato Grosso do Sul como lugar atrasado, terra de coroné.

Quando se assume um cargo eletivo a vida pessoal cai para o segundo plano e prevalece o interesse geral. Pelo menos é isso que se pode deduzir da transpiração do texto constitucional.  Nada pode ficar em segredo. A transparência é uma regra de ouro do Estado Democrático de Direito. Só em lugares onde prevalece a mentalidade autoritária é que se aceita cordialmente os sussurros do escurinho do cinema.

A trajetória atual de Murilo começou quando ele assumiu a secretaria de infra-estrutura (Seinfra) em 2019. Como é importante lembrar,  sua escolha deu-se em função de ordem judicial que proibia o Governador Reinaldo Azambuja de se aproximar fisicamente do órgão responsável por obras no Estado, dado o escândalo que envolvia empreiteiras, contratos, propinas etc. etc. 

Murilo, assim, resguardava a integridade da secretaria e dava ao governador espaço para acompanhar a gestão de obras, mesmo à distância. O arranjo deu certo. Mas quando vieram as eleições municipais de 2020, Murilo agiu sorrateiramente no bastidor e passou a perna no PSDB e no seu próprio partido, o DEM. Em Dourados, sua base eleitoral e segundo colégio eleitoral mais importante do Estado, deu guarida ao candidato do PP, Alan Guedes, frustrando os planos do tucanato. Isso gerou crise monumental.

Por isso, Murilo nunca foi perdoado. A traição teve como paga sua exoneração da Seinfra. Além disso, uma formidável dança das cabeças de aliados do vice ganhou volume e densidade, gerando muita tensão no Governo. 

Murilo, então, fechou as portas de seu bolicho, desativando a própria vice-governadoria, renunciando à presidência do DEM e deixando na esteira um pote até aqui de mágoa. 

Logo em seguida, deu a saber a quem interessar possa que havia sido infectado com o Covid-19 e desapareceu. As últimas notícias sobre seu quadro de saúde registram-se no último mês de março, embora nada seja oficial, tudo, como se disse acima, por conta informações de “amigos próximos da família”. Esquisito. 

O quadro em torno desse sumiço complica-se ainda mais no tocante aos desdobramentos do quadro sucessório de 2122. Especula-se que a base governista prepara-se para enfrentar as próximas eleições com nomes que compõe um arco de alianças que garantiria não só espaços legislativos como a continuidade de influência nos executivos estadual e municipais. 

O PSDB criaria um ambiente amistoso para a manutenção do poder da variada sopinha de letras partidária, garantido vida longa inclusive à República de Maracaju. 

A pergunta que fica é como isso será feito sem falar sobre Murilo Zauith?  Se o governador Reinaldo, por exemplo, anunciar que renunciará ao cargo no próximo ano para disputar o senado, será que seu Vice manterá os arranjos atuais para garantir que o Governo siga sem transtornos?

A partir disso, cada um tem seu palpite. Há aqueles que afirmam que o Governador não será candidato a nada. Outros dizem que Murilo encerrou sua carreira política, pois com 71 anos nas costas não tem mais saúde nem disposição para governar o Estado, nem por breve período. E também há quem afirme que Zauith é um sujeito pragmático e que, por isso, é acomodável. 

Como todo político com vasta experiência parlamentar (ele já foi deputado) convergirá para se aninhar, sem grandes problemas. Mas quem confia?

O fato é que se discute muito o processo sucessório, simulando nomes dos mais diversos, mas ninguém fala sobre Murilo. Sem ele a equação não fecha. E tudo pode se transformar numa breve chuva de verão ou, mantendo a linha de citação Shaksperiana, muitos por aí estão fazendo muito barulho por nada. Quando Zauith der um sinal de vida, saberemos.

Dante Filho

  As eleições presidenciais de 2022 são assuntos da mídia, dos grupos mais informados e dos agentes do mercado econômico. O tema ainda não ...

 


As eleições presidenciais de 2022 são assuntos da mídia, dos grupos mais informados e dos agentes do mercado econômico. O tema ainda não chegou ao grande eleitorado, que por ora sofre com a pandemia, queda na renda, desemprego e fome. 

Os ricos estão mais ricos e a massa da sociedade ou empobrece ou fica trancada em casa com medo e padecendo de sofrimento psíquico. Muitos choram seus mortos, outros seguem aglomerando em baladas cadavéricas, festas clandestinas e reclamando do lockdown (que, verdadeiramente, nunca existiu em todo o País). 

A atual fase de sangue, suor e lágrimas se arrastará pelos próximos anos. Não é hora de sorrir nem cantar.

No momento certo, a eleição tornar-se-á o assunto da vez, engajando milhões de brasileiros, que, ouvindo, falando, discutindo, serão bombardeados diariamente pela propaganda dos candidatos para, assim, formar consensos e selecionar aqueles que estão aptos a comandar o poder no tempo regulamentar ditado pela Constituição. Esta é a regra do jogo.

Será a hora do balanço do passado e do imaginativo salto para o futuro. 

Por enquanto, nos alimentamos de especulações, de desenho de cenários e notícias em torno da articulação de partidos e de pré-candidatos.  

Haverá o tempo certo para o teatro da vida abrir suas cortinas e a platéia avaliar o que está achando do espetáculo. Por enquanto, tudo é ensaio. Os atores e atrizes se aquecem nos bastidores. 

Por injunções de natureza histórica e cultural, dois nomes despontam na voga dos acontecimentos, galvanizando as atenções do público: Bolsonaro e Lula. Para muita gente, os dois dividirão as preferências, não deixando espaço para o surgimento potencial de outros nomes, algo que seria útil até para, quem sabe, interromper o círculo populista e autoritário dos últimos 30 anos. Será difícil, embora não impossível. 

Mas somos o que somos, gostando ou não, essa é a lógica do nosso sistema. A polarização dos últimos tempos deixa cada vez o campo das abstrações e passa a incorporar a realidade com força jamais vista. “Polarização” não é mera palavra. É um fato.

Parece que a ninguém é dado o direito de discutir escolhas fora da enquadratura bipolar estabelecida de nossa política.

 O debate fragmentado, essência da democracia representativa, no qual múltiplas visões se somam, subtraem, dividem e multiplicam percepções, termina sendo engolfado pelo maniqueísmo que reduz tudo em branco ou preto, não havendo margens para se pensar em outras graduações de cor. 

Se for isso – tomara que não seja – será exigido do eleitorado mais do que impulso emocional, talvez ponderações minimamente racionais sobre o que estará em jogo em 2022. Será uma missão difícil, mas vale a pena tentar.

A democracia vem demonstrando que o eleitor é um ser cada vez mais pragmático. Dizem que se vota olhando o bolso e o estômago. Pode ser. Mesmo a eleição constituindo-se numa manifestação coletiva, o voto individual nucleariza o processo pela soma das escolhas que ocorrem nas vicissitudes cotidianas. 

A vida que se está levando fortalece convicções. E a vida que se poderá levar cria um ambiente de ilusões que transforma o voto num instrumento de esperança. 

Claro que o pragmatismo do eleitor é essencialmente imediatista. A memória é curta, mas sentimentos subliminares como raiva, ressentimento e perda de perspectiva ficam sedimentado no leito da consciência, podendo emergir conforme as campanhas acionam gatilhos emocionais nas mais variadas dimensões.

O escopo da campanha de Bolsonaro será fazer o eleitor acreditar que ele merece ter mais um mandato na presidência. Mesmo que em quase todos os aspectos de sua gestão sobressaia a impressão de que um desastre de proporções gigantescas esteja sendo engendrado, erodindo as bases das instituições e do próprio conceito de democracia, o Capitão segue em sua corrida maluca, com apoio de sua torcida de seguidores em número mais ou menos estável.

É inquestionável a resiliência do Bolsonarismo. Se olharmos os níveis de popularidade de Temer e de Dilma, todos sabem que por muito menos ambos foram jogados na lata de lixo da história. 

Mesmo pisoteando milhares de cadáveres, arrombando a política ambiental, jogando fora qualquer laivo de liberalismo que antes ornamentava sua agenda econômica, além de engrenar o Centrão no eixo do poder, por incrível que pareça Bolsonaro segue a mesma toada do negacionismo explícito, agredindo a imprensa, maltratando o bom senso, liquidando o combate à corrupção e fugindo da realidade para o mundo das Fake News. É um espanto.

A loucura tem método. É uma metodologia que retroalimenta narrativas formatando paranóias e teorias conspiratórias dignas de filme da Disney. O povo bolsonarista gosta disso. E assim seu mito segue em frente, sempre lembrando que o aparelhamento petista, o STF e a oposição o impediram de governar como se deve.

No próximo ano o Capitão deve, com certeza, falar que 4 anos foi pouco para “arrumar toda essa bagunça que taí”, para liquidar a fatura do politicamente correto, impedir a volta da esquerda e garantir o lema da “Pátria Acima de Tudo, Deus acima de todos”, mantendo seus índices de 30% de preferência nas pesquisas, o que lhe poderá garantir uma passagem para o segundo turno. 

A mamata ainda não acabou, é sempre bom lembrar. E é assim que muitos especialistas desenham o cenário futuro.

Muitos insistirão na tese de que 4 anos foi pouco e que o Capitão merece mais um quadriênio pela frente para “terminar o serviço que começou”, mesmo porque ele não construirá um sucessor, deixando sempre no ar a penumbra do golpe ou de uma manobra para garantir a longevidade da direita no poder. 

No contraponto, Lula trará consigo a história de 12 anos do PT no comando do País, com seus ganhos e perdas, evitando falar do mergulho que ele e seu partido deram no lamaçal da corrupção, escondendo os tenebrosos anos Dilma, com o relicário de invencionices já conhecidos. 

Por experiência, sabemos o que Lula vai falar, qual a direção do seu discurso, quais são suas promessas e quais juras sinalizará para todos os lados, acenando paz & amor, tentando, pela via da vitimização e do salvacionismo, ampliar a base de apoio, fazendo uma convergência ao centro, na tentativa de buscar eleitores da classe pobre conservadora e da classe média arrependida. 

Vai dar certo?

Ninguém sabe. O que a imaginação pode alcançar é a possibilidade de Lula ser eleito num segundo turno ao qual o bolsonarismo promete desde já fazer um pampeiro caso os votos não sejam auditáveis e a palavra “fraude” seja devidamente engolida pelos quartéis. Tudo complicado.

Mais: até as emas do Palácio do Planalto sabem que se isso ocorrer Lula não ficará apenas 4 anos no Planalto, mas provavelmente 8 anos, dado sua experiência com reeleições e, como não se pode deixar de esquecer, com a eleição de seu poste preferido. 

Ou seja: o eleitor pragmático poderá estar endossando vida longa ao PT, colocando em jejum o centro e a direita por anos e anos longe da presidência, o que para o Centrão faz pouca diferença, haja vista que os objetivos desse condomínio no exercício do poder são todas as coisas que estamos cansados de saber.

Espera-se que o jogo comece pra valer a partir do segundo semestre, embora as incertezas sejam crescentes com a CPI da Covid, com as ações da Operação Lava-Jato (natimorta, embora útil na hora certa) e com as estripulias filiais dos candidatos. Os filhos darão trabalho para muitos candidatos durante a próxima campanha. 

Por fim, o fluxo dos eventos mostrará qual será a correlação de forças que emergirá da complexidade desse processo. Tomara que o atual cenário mude. Caso contrário, o Brasil continuará muito difícil para se viver. Triste.


  Dante Filho*   Estou assistindo à série “II Guerra Mundial em Cores” (Netflix, produção britânica de 2009). Venho atravessando madrugadas,...

 



Dante Filho*

 

Estou assistindo à série “II Guerra Mundial em Cores” (Netflix, produção britânica de 2009). Venho atravessando madrugadas, capítulo a capítulo, entre fascinado e assustado. 

As imagens colorizadas do cenário de guerra dão certa ênfase terrorífica ao acontecimento mais dramático de nosso tempo, do qual somos uma espécie de filhotes geracionais, provocando aflições e perplexidades. 

Foi neste contexto que foi "inventado" o chamado mundo pós-moderno. O saldo não é nada edificante.

Até agora, o momento mais impactante foi o que conta a história do "Pacto de Molotov" e a tentativa das tropas Alemãs, tempos depois, de conquistar Stalingrado. 

Muito já se falou sobre este capítulo específico da II guerra, mas a narrativa da série da Netflix, de certa maneira, ajuda a jogar um facho de luz sobre a política de um modo geral, especificamente a brasileira dos últimos dias. 

Nada é impossível no mundo dos acordos e dos interesses estratégicos de longo prazo.

Claro que é preciso dar um desconto  neste tipo de paralelismo, mas o evento que atravessou os anos de 1939 e 45 pode ser visto como uma metáfora das possibilidades e das conveniências políticas na sua incessante luta pelo poder a qualquer preço. Vidas humanas não importam.

Se até Hitler e Stalin sentaram-se à mesma mesa para combinar como dividiriam o mundo, nada impede que se discuta o acordo tácito que vem sendo engendrado entre Lula e Bolsonaro para enfrentar a batalha eleitoral de 2022. 

Acho estranho, neste aspecto, quando recebo críticas de que se trata de devaneio ou teoria da conspiração. 

Quem leu o último livro de Zygmund Bauman, “Retrotopia”, talvez possa compreender com mais clareza esse elemento marcante da atualidade: a “utopia do passado”, sintoma da perda de esperança, de reterritorialização dos valores e da necessidade de construir um futuro dando passos para trás, apegando-se, enfim, com fanatismo a ondas regressivas em todas as esferas da vida. 

Sei que toda leitura política carrega este risco de elaboração meio fantasiosa de nossas experiências históricas. Ninguém pode adivinhar o desdobramento dos acontecimentos do tempo. Mas aprendemos a ler sinais, ouvir ruídos e a perceber a tessitura de fios invisíveis formando um desenho mais ou menos crível da realidade que vai se formando. 

Quando Hitler e Stálin formalizaram o pacto de não agressão Germano-Soviética, logo no início da segunda grande guerra, a perplexidade foi geral. Como? Inimigos ideológicos viscerais, antípodas mortais, como puderam chegar a esse ponto? Os “especialistas” da esquerda e da direita ficaram sem chão.

Mais tarde perceberam que Hitler e Stálin estavam dividindo domínios e territórios, enfraquecendo inimigos, cravando seus dentes em nacos de uma Europa polarizada, ampla e profundamente ressentida com os despojos da guerra anterior. 

Mais tarde Hitler e Stalin jogaram os termos do acordo de não agressão no fogo da lareira e decidiram se enfrentar militarmente. O cenário do embate deu-se em Stalingrado. Foi uma escolha proposital. Hitler queria ferir o ego de Stalin derrotando-o na cidade que levava o seu nome. Stalin ordenou aos seus generais que não admitiria essa derrota. 

Stalingrado foi cercada e destruída. Resistiu. Nenhum dos lados cedeu. Resultado: 1 milhão e 800 mil mortos. Tudo por vaidade. Tudo pelo poder. Tudo pelo domínio e pela satisfação pessoal de dois ditadores sanguinários que aceitavam qualquer crime, menos a derrota. A série da  Netflix vale por esse episódio. 

No meu caso, não consegui deixar de pensar na nossa paróquia. Lula e Bolsonaro estão se preparando para se enfrentar, tendo já a esta altura formalizado um “Pacto de Molotov” particular e disfarçado, sonhando que o quadro de 2018 repetirá sem grandes alterações de roteiro.

Mas para que isso aconteça terão que rifar Moro, Doria, Ciro, Boulos e mais alguns personagens periféricos,  transformando-os em vítimas colaterais – o que já vem ocorrendo, num revertério surpreendente capitaneado pelo STF -, interditando o centro político, deixando apenas  despojos para que os eleitores possam optar, mais uma vez, por apenas dois pólos, que representam a linhagem do charlatanismo e do populismo que impedem o pleno florescimento de nossa democracia capenga. 

Lula e Bolsonaro apostam em manobras ora invisíveis, mas que prosperam à medida que o Centrão avança com voracidade, ocupando espaços, azeitando a máquina de corrupção, deixando as instituições de joelhos, sem margem de manobras para uma oposição confusa e despreparada,  sem eixo nem propósito. 

O Corona Vírus, assim, pode ser reinterpretado como metáfora de nossa política. Ela penetra em nossos corpos, contamina o ar que nos rodeia, causa asfixia, não deixando gravidade nem espaço de atração para escolhas que nos coloque fora da esfera dos piores cenários.

Lula e Bolsonaro, por enquanto, se mostram assintomáticos, apenas causadores de uma “gripezinha” aqui e ali, mas seguem firme para invadir com fúria o organismo do hospedeiro, deixando-o em estado grave, num País que há muito está na UTI.


*jornalista e escritor


  Dante Filho*   É provável que a opinião pública de Mato Grosso do Sul passe a ouvir cada vez mais o nome de Eduardo Riedel no dia a dia. E...

 




Dante Filho*

 

É provável que a opinião pública de Mato Grosso do Sul passe a ouvir cada vez mais o nome de Eduardo Riedel no dia a dia. Ele foi escolhido por Reinaldo Azambuja para ser o Governador de fato, tornando-se como se diz um “supersecretário”. Riedel enfeixa o poder nas mãos como nenhum outro secretário de estado na breve história de nosso Estado. 

É preciso reconhecer-lhe os atributos de bom gerentão. E com a vantagem de não ter a mão pesada nem aquela sanha perseguidora de seu chefe. Ele é um cara ligth, quase invisível, mas que sabe operar nossa complexa burocracia: foi ele quem demonstrou ao governador que um dos segredos da governabilidade é o manter o salário do funcionalismo mais do que em dia e que criar um sistema piramidal de conceder pagamentos vantajosos para a cúpula e esmagar os daqueles que estão na base ajuda a manter a coesão da equipe.

Ele manda, mas não se impõe. Ele controla, mas passa despercebido. Ele fala, mas não com a ênfase necessária para que as pessoas saibam de onde emanam as ordens, projetos e ações. Ele é o poder e o “não-poder”. Falta-lhe uma coisa: inimigos explícitos. Ninguém fala mal de Riedel. Esquisito, mas é assim. 

A idéia é prepará-lo para ser o candidato a governador do PSDB nas próximas eleições. Pode ser uma boa idéia. Riedel tem 50 anos, nasceu no Rio de Janeiro, formou-se biólogo, tornou-se  pecuarista e começou sua vida política como presidente do Sindicato Rural de Maracajú, destacando-se depois como comandante da poderosa Famasul (fazendo seus sucessores quase com mão de ferro). 

Ele é um grandalhão suave, sorriso agradável, discreto, meio tímido, bem articulado quando fala para os seus – empresários dos mais diversos setores, ou seja, o PIB estadual. 

Não é um truculento explícito, mas opera bem as cordinhas das pressões políticas contra adversários quando lhe convém. Fala corretamente, tem uma cabeça moderna até onde a vista alcança e é possível.

Pessoalmente, Riedel é um sujeito gostável, bem diferente da turma da República de Maracajú, apesar de fazer parte dela, com todos os seus ranços e prepotências. Tem algumas capivaras na justiça, mas nada que possa abalar suas estruturas. É bem de vida e tem uma boa cultura nas áreas administrativas e de gestão, pois estudou na Fundação Getúlio Vargas. 

Figuras políticas tradicionais de Mato Grosso do Sul afiançam que Riedel é um homem honesto, prudente e bom democrata. No limite, é um liberal à brasileira, ou seja, valoriza a iniciativa privada, mas não recusa as benesses do Estado. Digamos que, ideologicamente, é a direita soft.

A escolha de Riedel como pré-candidato não é uma má idéia, apesar de que muita gente diz que ele é o perfeito boi de piranha de Azambuja. Ele está sendo testado. Certamente, os gênios do marketing estão medindo as condições de temperatura e pressão para ver se ele tem alguma chance numa disputa dessa envergadura. 

Hipoteticamente, suas circunstâncias são boas. Ele deve ter uma baixa taxa de conhecimento e, conseqüentemente, uma rejeição ao rés do chão. Com isso, ele só precisa ter visibilidade, uma razoável base de apoio (com capilarização em todo o Estado) e um discurso que tenha conteúdo para o Capital e para o Trabalho. Bem embalado, com muita mídia e dinheiro, ele pode avançar.

O problema não é falar para empresários com facilidade, mas conversar com o povão é algo que o pré-candidato não sabe fazer. É provável que entre as camadas mais pobres ele pareça arrogante, um fazendeirão metido a besta As camadas profundas (a maioria dos eleitores) possuem esferas tectônicas complicadas para serem devidamente cascalhadas por gente como Riedel. 

No primeiro momento, contudo,  do ponto de visto político da construção de uma candidatura competitiva, Riedel precisa combinar com seu entorno qual a melhor forma de comunicação. De cara, o lançamento de seu nome foi feito pelo capitão-do-mato de Azambuja, o que é mau sinal. 

Teve-se a impressão de que tal gesto não foi para impulsionar e, sim, flambar. O lançamento de uma candidatura segue um ritual que não pode ser feito por um preposto que flerta o tempo todo com a canalhice. Pegou mal para Dudu. 

Neste aspecto, vejo que o pré-candidato terá que lidar com personagens que fingem apoiá-lo, mas acompanham os acontecimentos na busca infrene por uma janela de oportunidade para trair. 

Riedel tem moedas de troca políticas muito poderosas: nomeações, exonerações, recursos públicos para obras, manejo do caixa, pagamento de salários e benefícios, influência nos Poderes, apoio do chefão e de sua família, enfim, coisas que ensejam reverência e também muita ciumeira. 

Riedel sabe que o capitão-do-mato não gosta de dividir poder. Sabe também que Azamba é refém daquele que sabe segredos demais para ficar solto por aí. Sabe que a máquina de comunicação do governo pode trabalhar contra ele por debaixo dos panos. 

Enquanto isso, Azambuja assiste a tudo, deixando Riedel, por enquanto, no stand by, olhando para seus problemas judiciais, pensando no que fazer com seu vice, Murilo Zauith, desenhando cenários para uma provável candidatura ( Senado, Câmara Federal ou até mesmo a Assembléia Legislativa, caso o quadro seja muito sombrio).

Da solução de todas estas equações dependerá o futuro de Eduardo Riedel e do PSDB, por tabela. Riedel seria um continuísmo de Azambuja sem o lado podre que hoje imanta parcela do tucanato. Claro que sua candidatura enfrentará o Bolsonarismo raivoso que deverá somar força com a Ministra Tereza Cristina, que divide parte da base de apoio (o agronegócio) de Riedel, podendo enfraquecê-lo. 

Há outros fatores que poderão ser comentados mais adiante. Mas Reidel só será um candidato viável se conseguir formatar consensos que vão além do pequeno mundo da República de Maracaju. Conseguirá? Não sei. Ele tem pelo menos 10 meses para mostrar que sim ou que não.

 Vamos acompanhar.



  Nesta segunda-feira (04 de janeiro) o público leitor de Mato Grosso do Sul foi brindado com os dois mundos do Governador Reinando Azambuj...

 

Nesta segunda-feira (04 de janeiro) o público leitor de Mato Grosso do Sul foi brindado com os dois mundos do Governador Reinando Azambuja. Uma entrevista sob controle no jornal Correio do Estado e uma manchete no site Midiamax que mostra que o avanço do processo criminal de Azambuja segue firme e forte. 

No Correio do Estado (com a assinatura do jornalismo correto de Eduardo Miranda) Azambuja se mostra um bom gestor, administrador competente que está contribuindo para o crescimento econômico de MS. Ali está o grande homem de negócios, personagem bem-intencionado, sujeito que faz tudo correto, mesmo tomando “medidas impopulares”. 

É perceptível que as respostas às perguntas do jornal foram preparadas pela sua assessoria de imprensa. O linguajar de Azambuja é tosco, seu raciocínio é o do fazendeirão, mas na entrevista emana o linguajar correto do empresário, do político bacana, do sujeito que faz boniteza, mesmo em tempos de adversidade. 

Já no Midiamax , cuja reportagem leva o nome do jornalista Guilherme Cavalcante (com texto correto e bem explicado), vemos  Reinaldo Azambuja como “líder de organização criminosa”, tentando desesperadamente driblar o judiciário com ajuda de uma milionária bancada de advogados. 

No Correião, Azamba flutua no sucesso; no Midiamax, ele está beirando o abismo, podendo inclusive ir a ferros. 

É de se perguntar: qual destes dois você prefere?

O sujeito limpo, rico, bem articulado, com visão estratégica do processo de desenvolvimento do Estado; ou o outro, o picareta, o cara maligno, que há tempos articula uma quadrilha criminosa, acusado de ter tungado dos cofres públicos mais de R$ 400 milhões em esquemas nebulosos de corrupção? 

Bem, cada um escolhe sua versão de Azambuja que mais lhe aprouver. As duas podem ser verdadeiras ou falsas. Ou talvez sua verdadeira personalidade esteja no meio de tudo isso, numa versão meio forçada do Dr. Jekyll e mr. Hyde, na velha e conhecida história do médico e do monstro. 

O fato é que o homem que emana da entrevista do Correio é fake. E o que está explicito no material do Midiamax ainda depende de trâmites judiciais. 

Não dá para afirmar categoricamente qual destes dois homens triunfará ou sucumbirá no final. 

No mundo ideal toda a imprensa do Estado deveria estar escarafunchando um governo (qualquer um) sob fortes suspeitas de crime sistemático com os recursos públicos. Neste planeta sonhado, Azamba deveria ser afastado da administração, esperando a conclusão decisiva do judiciário.

Mas o establishment de Mato Grosso do Sul está bem guardado no bolso da República de Maracaju. Claro que temos pessoas honestas suportando este quadro calamitoso acreditando que é melhor isso do que a ingovernabilidade. 

Mas o fato real é que não existe uma oposição que vocalize os sentimentos de perplexidade do Estado, mesmo porque ela é meramente oportunista e só rebola nos períodos eleitorais. 

A grande pergunta que se poderá fazer ao longo deste 2021 é se a máquina da corrupção ainda está funcionando a todo o vapor em MS. 

Não sabemos cabalmente qual a real situação, se depois da lava jato houve um pacto para segurar a barra, ou se a cúpula administrativa do Estado refreou suas ganas e suas taras depois de tantos escândalos. 

Só sabemos que nossas instituições estão moitadas, encolhidas, esperando cair do céu das instâncias superiores da Justiça uma decisão que poderá ou não revelar o tamanho do buraco que Azambuja nos meteu. 

Feliz ano novo.



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