As crianças e as estátuas (Para Dudu e Gabi) As crianças gostam de brincar com as palavras O A pode ser uma aventura O B pode...



As crianças e as estátuas

(Para Dudu e Gabi)

As crianças gostam de brincar com as palavras
O A pode ser uma aventura
O B pode ter sabor de morango
O C tem cara de risada
As crianças não entendem as estátuas
Elas não conhecem o bronze
Não mergulham na sílica
Mas sabem que a dura matéria não
Combina com os sentimentos

Gramática dura


Palavra: 
lavra cavada
Pedra dura
Cova rasa
Poço profundo
Som breve
Gesto tênue
Alocução suave
Loucura infrene
Letra após letra
Sílabas e frases
Sons e lábios
Lavoura etrusca



Na história da anatomia humana jamais existiu um homem com as dimensões genitais de Zé Marcone. O cara era exagerado. Às vezes, ele mesm...


Na história da anatomia humana jamais existiu um homem com as dimensões genitais de Zé Marcone. O cara era exagerado. Às vezes, ele mesmo se espantava com o tamanho daquela coisa comprida, que mais parecia uma enguia.

Zé cresceu envaidecido pela anomalia e se valeu dessa particularidade para impressionar a mulherada. A primeira delas foi Claudinha, moça humilde, lá da Coophavilla, que de tão entusiasmada com as pinceladas do rapaz passou a descrevê-lo como ‘pé de mesa’ para as amigas.

Com tamanha propaganda vinda da periferia, Zé Marcone começou a fazer sucesso na região nobre da cidade: Jardim dos Estados, lugar onde conheceu uma paraguaia de coxas gorduchas, dando mole no pedaço.

Logo no início do romance, a mãe de Marcone se posicionou contra a relação. Indignada, ela dizia que aquela união não tinha cabimento e prevenia o casal  a respeito da imaturidade de ambos para um relacionamento sério. Depois foi a vez do pai do rapaz embaçar o romance e lançar olhares desdenhosos e críticas  severas sobre a paraguaia.

Até ali, tudo parecia conspirar contra o namoro, mas àquela altura, mesmo sem o respaldo da família,  nenhum apelo emocional fazia mais sentido. A relação estava consolidada desde que Marcone passou a pernoitar na casa da paraguaia.

Aqui faço um reparo: não se entende até hoje como um homem de esperteza sem tamanho foi fisgado daquela maneira e, pior, fazendo infeliz as mulheres que o tinham em rodízio.

O tempo passou e aos poucos a família foi digerindo a paraguaia, assimilando sua voz estridente, sua cara lambida, seus costumes gulosos e aquele jeitão preguiçoso da fronteira.

Dez anos depois, com dois filhos e uma rotina conjugal tediosa, Marcone não aguentou mais bancar o tipo marido fiel e passou a desfrutar da poligamia.

A coisa foi acontecendo naturalmente. Uma escapulida aqui, outra ali, até o cara  pôr os olhos em cima de uma colega de serviço.

A coisa começou devagarinho: conversinhas insinuantes, piscadinhas, convites para cervejinha e tira-gostos no pós-expediente, até Marcone arrastá-la desprevenida para a mesa do almoxarifado onde se amaram com fúria, fazendo estremecer até as divisórias do local.

No começo, ela fez jogo duro e aquele tipo de mulher reservada. Mas bastou o cara  aparecer no serviço se insinuando com uma roupa justa ao corpo e um volume grande empapuçando a região da braguilha, que a coisa mudou de figura.

Com a família de Zé Marcone oferecendo resistência e gastando-se em palavras contra o novo romance, o casal não teve outro jeito senão permanecer recluso na periferia. Não recebiam visitas, não atendiam  o telefone e saiam de casa só para trabalhar e tomar umas biritas.

Com salários atrasados e uma situação financeira difícil, Marcone e a nova mulher resolveram buscar uma saída para manter as contas da casa em dia. A ideia era arrumar um bico como complemento salarial para diminuir as dívidas do casal.

No começo, Marcone vendia kibe, kafta e outras iguarias árabes pra sair do vermelho, mas como a coisa apertou, ele aceitou um convite inusitado de um primo para trabalhar no ramo do entretenimento sexual.

A proposta era a seguinte. Como Marcone era uma cara avantajado, seria fácil oferecê-lo  a senhoras carentes em troca de alguns cobres. O público alvo seria cinquentonas gordinhas, destas de carne amolegada e dispostas a tudo por alguns minutos brincando com a anaconda de Marcone.

O negócio foi crescendo e  Zé Marcone acabou sendo requisitado para atender em outros cafundós. O foco agora eram as cidades do interior onde ele formaria uma clientela fiel e disposta a tudo por umas estocadas.

Marcone chegava nas cidades em cima da hora e ficava recluso no camarim das boates. Depois, surgia triunfal no palco metido em uma cueca de seda lilás  e um cap de guarda na cabeça. Em seguida, o assistente ligava as luzes e ele saia dançando o clássico I Surviver, com  um sortimento de mulheres com notas graúdas prontas para lhe prestigiar noite adentro .

A coisa pegava fogo durante a performance de Marcone, com a mulherada ao delírio gritando seu nome de guerra: “Guloseima, Guloseima”. O cara fazia maior sucesso.

Tempos depois, já com as contas em dia e satisfeito com a cartela de clientes conquistadas no Estado, Zé Marcone resolveu se aposentar da vida de casas noturnas, shows eróticos e deixou a segunda mulher.

Voltou à sua cidade natal disposto a mudar de vida e frequentar uma igreja pra expurgar os pecados do corpo e da alma.

No começo, as coisas iam de vento em popa: arrumou emprego, voltou aos bancos escolares e passou a procurar uma mulher honesta para se relacionar.  Mas bastou uma colega de sala convidá-lo para um baile na madrugada que Marcone pois tudo a perder. 

Diz a lenda que quando ele sente a força da lua no céu sai de casa com a obstinação de um bode atrás de cabra no cio.

A família já perdeu as esperanças de vê-lo sossegado e longe dos conflitos que abrasam o coração. Marcone vive por ai e convive com a angústia do conflito da carne. A última vez que soube de seu paradeiro tinha engatado um caso na região pantaneira. De lá, poucas notícias, há indícios de novas e devastadoras aventuras amorosas, mas essa história fica para o próximo capítulo.

Continua....

Desbravando matérias jornalísticas nas minhas primeiras horas matinais deparei-me com determinada nota estimulante de desconforto e indig...

Desbravando matérias jornalísticas nas minhas primeiras horas matinais deparei-me com determinada nota estimulante de desconforto e indignação aos meus princípios.
Certos assuntos em nosso País, devido carência de critérios morais dos legisladores pátrios, nos causam maléficas perplexidades psico-ideológicas.

Antes de aprofundar no assunto, questiono-me quanto prováveis equívocos ao defender teses de que um cidadão com idade superada não possa mais contribuir com a vida pública salvo para transfusões de sabedoria e conhecimento a terceiros interessados.

“Aos 86 anos, o deputado Paulo Maluf, que vem mantendo seu potencial de votos nos últimos anos, vai disputar a reeleição para Câmara dos Deputados”. (Correio do Estado; 05-12-2017)

A indigestão ocasionada com esta matéria atinge agressivamente raciocínios lógicos ansiosos por oxigenação nas vias públicas em seus mais diversos parlamentos.

Um cidadão que já viveu áureos tempos, hoje individualizado por seus únicos interesses e egos incandescentes, ofuscam intransigentemente o novo na arena pública onde se exige mais energia e menos discurso.

Vejo, ouço e sinto pessoas nos mais diversos ambientes enojados com a palavra “política”. Estão certas. Vivemos um momento de asco pelas condutas imorais desta espécie de gente que menosprezam o caráter humano.

O que uma população pode esperar de um parlamentar com seus 86 anos de idade? Um poder engessado.

Com muita sobriedade, reservo minha posição ofensiva à questão poupando-me de um maior desgaste mental. 

Estamos diante gêneros sarcásticos que visam um bem estar social, holofotes e vaidades vitalícias.

Importante e necessário nesta hora o enraizamento de um projeto defendendo idade máxima para detentores de mandato. 

Precisamos determinar uma ofensiva no tocante limite de idade para o exercício da função bem como dar fim a qualquer tipo de reeleição aqueles que visam colaboração com a vida pública.

Sendo mais audacioso, precisamos alimentar a ideia daquele que já serviu a algum mandato não poder mais exercê-lo novamente, salvo outras espécies ainda não desenvolvidas. É o mister da rotatividade de pensadores em favor de uma sociedade. 

Precisamos acastelar uma implacável política de contribuição extinguindo, por fim, os infestados mandatos “profissionais” que aprisionam e soterram mentes brilhantes repletas de energia, ociosas por fazer o bem. 

ADVOGADO

Errar, errei Todas as culpas  Que tenho Esfarelo nas mãos E dou para os passarinhos Comer Andando em frente Sem parar Um dia sei...


Errar, errei
Todas as culpas 
Que tenho
Esfarelo nas mãos
E dou para os passarinhos
Comer

Andando em frente
Sem parar
Um dia sei 
Que vou voar.


Ninguém gosta de ser preso. As prisões são desagradáveis. As brasileiras são verdadeiras masmorras medievais, afirmou tempos atrás um Mi...


Ninguém gosta de ser preso. As prisões são desagradáveis. As brasileiras são verdadeiras masmorras medievais, afirmou tempos atrás um Ministro da Justiça. Ficar confinado numa cela representa uma contenção moral e uma derrota pessoal. Entrar numa penitenciária e sair inteiro – independentemente do tempo de permanência – não é para qualquer um. 

Viver numa prisão é um horror que depende de disciplina, frieza psicológica e uma intensa capacidade de sublimação e alienação. 

Para aqueles em que o cotidiano de pobreza, injustiça e sofrimento foi incorporado à vida, ser preso pode significar apenas mudança de paradigma. Mas para aqueles que se situam nas camadas mais enriquecidas da sociedade, principalmente os que se aproveitaram dos fáusticos espaços entre o público e o privado, não é fácil. 

Como se sabe, as prisões foram feitas para a ralé que pratica crimes banais. Para os maganos, na verdade, foi feita a lei com suas frinchas tortuosas. Ela permite salvaguardas eternas, sobretudo para quem guardou dinheiro surrupiado para pagar advogados estrelados. 

Nos últimos anos uma nova clientela tem ocupado as nossas prisões. Empresários de proa, corruptos deslumbrados, ex-governadores, deputados, prefeitos, vereadores, enfim, aquela turma diferenciada que conhecemos. 

Ficamos sabendo que muitos estão deprimidos, purgando suas dores, preocupados com a reputação da família, sofrendo com aquela sensação de vazio que acomete quem acreditavam que o poder conferia o status de semideuses aos personagens que incorporaram. 

Para casos como esses, as cadeias talvez possam servir para reflexões mais aprofundadas acerca de feitos e valores cultivados pelas décadas de impunidade. 

Se de tudo isso as prisões melhorarem um pouquinho, tornando-as mais limpas, menos lotadas, mais eficazes, certamente se poderá dizer que mudamos. Caso contrário, possivelmente voltaremos ao estágio anterior. 

Artigo publicado originalmente no jornal Correio do Estado nesta sexta-feira A expressão é de Max Weber, o sociólogo alemão que deu di...


Artigo publicado originalmente no jornal Correio do Estado nesta sexta-feira

A expressão é de Max Weber, o sociólogo alemão que deu dimensão à ação política. Para Weber o verdadeiro homem político deveria possuir ao menos três qualidades essenciais:  paixão por uma causa, sentimento de responsabilidade e o senso de proporção. 

Deveria possuir as três qualidades embora uma delas com maior dose, não alienaria o conteúdo. A tese de Max Weber vem atravessando os anos, borrascas e intempéries não perdem o seu norte. 

Nestes tempos tão desavisados, de tantos desencontros observo com profunda preocupação o que vem ocorrendo no campo da política partidária em nosso país. A bem dizer os partidos políticos desmilinguiram-se na poeira das vaidades e ambições de seus donatários. 

Veja o que ocorreu recentemente ao PSDB, o meu partido, um desastre nacional, perdeu o seu conteúdo programático, a essência de sua ação política e está vagando pelas ruas e vielas desnorteado. 

Um grupo aguerrido quer soerguê-lo, fazê-lo voltar as suas origens programáticas que tanto conquistaram a simpatia do eleitorado, porém enfrenta a sanha raivosa dos que estão próximos às tetas do poder central e não querem ser desmamados. E assim o PSDB vai perdendo seus últimos minutos da confiança popular.

Não se restringe ao tucanato os males que o afetam. Tais males se alastram de intensidade acentuada em todas as conhecidas como grandes agremiações nacionais. E tal resulta numa ausência acentuada de valores humanos que não conseguem se impor por sua cultura, conceito ético, moral e acrisolado espírito público perante a sociedade, porém substituídos por meia dúzia de carreiristas, demagogos que sabem como ninguém levar na saliva uma multidão de aparentes  incautos e que destroem a credibilidade do cidadão: não há mais crédito ao político, todos estão na vala comum do abjeto.

As eleições presidenciais, as renovações de dois terços do Senado da República, as eleições gerais para a Câmara dos Deputados, as Assembleias Legislativas de todos os estados federados, como também da Câmara Distrital de Brasília hão de se realizar no próximo ano, em outubro. Para as eleições aos poderes executivos federal e estaduais, eventualmente poderão ocorrer em dois turnos. 

Não sinto calor popular pelos pleitos que ocorrerão. Talvez seja fluxo do desânimo que apossa o cidadão brasileiro nesse clima de descrença no político. 

Eu mesmo gostaria de vencer esse clima, desejo acreditar que no meu partido o PSDB, embora conviva com um clima de penúria de valores nacionais, daí ainda possa surgir uma liderança que tenha paixão pela causa – justiça social e sistema parlamentarista de governo – sentimento de responsabilidade com a nação e senso de proporção na avaliação de seus atos. Não seria almejar muito.

Conta uma velha anedota que o marido, chegando em casa, flagra a mulher com outro sobre o sofá. Em seguida, ele põe o sofá à venda e con...


Conta uma velha anedota que o marido, chegando em casa, flagra a mulher com outro sobre o sofá. Em seguida, ele põe o sofá à venda e continua a viver com a mulher. 

Pois bem, aproveitando-me da metáfora da alcova, observo que algumas pessoas - em relação à colaboração premiada - agem como o marido traído, condenando o colaborador e deixando à larga o conteúdo da colaboração e os malfeitos e as pessoas nelas mencionadas.

Todos sabemos a essa altura, depois do  “efeito Lava Jato”, que a colaboração premiada vale tanto quanto as provas que aporta para o processo, sendo certo também que, o prêmio ajustado com o colaborador, somente será entregue se e quando demonstrar-se eficaz a colaboração.

Isto é, por ocasião da sentença que  julgar o processo e apreciar as provas e informações trazidas pelo colaborador. 

A colaboração só é admissível por parte de componentes de organização criminosa, ou seja,  quem delata deve contar também sobre os próprios malfeitos, donde ser absolutamente desarrazoado tentar desqualificar o delator apontando-o como bandido.

É preciso esclarecer as coisas: como visto, delator e delatado(s) compunham a mesma organização criminosa e, portanto, cometeram crimes em bando.

As delações que temos visto ultimamente referem-se em sua maior parte à  corrupção nas diversas esferas da administração pública, crime que é praticado à sorrelfa, longe do olhar da sociedade, exceto ao dos cúmplices do mesmo bando. Daí, a quase imprescindibilidade da colaboração como meio para desbaratar as quadrilhas que roubam o dinheiro de todos nós.

E o que significa a corrupção, senão a traição do agente público ao  povo que o elegeu? Logo, ao invés de vendermos o sofá, malhando o colaborador, devemos focar nossa atenção a quem nos traiu, rompendo laços com este se realmente comprovada a quebra de aliança pactuada nas urnas. Deixemos o sofá onde está.

*advogado (newley@newley.com.br)

Os primeiros relatos em torno da nova prisão do ex-governador André Puccinelli, hoje pela manhã, dão conta de que “ele estava tanquilo e...


Os primeiros relatos em torno da nova prisão do ex-governador André Puccinelli, hoje pela manhã, dão conta de que “ele estava tanquilo e brincalhão”. 

Com certeza, a visita da PF era esperada. 

Principalmente porque no próximo dia 18 o PMDB ia aclamá-lo como presidente regional do partido. 

Puccinelli sempre disse que sua garantia era ficar submerso. Colocar a cabeça pra fora era um risco. 

Foi o que aconteceu. 

Não se deve descartar que há uma fina sintonia entre fatos políticos e operações policiais. Nesse aspecto, a hipótese de coincidência fica a cargo do freguês que acompanha o noticiário e a pauleira das redes sociais. 

Seja lá o que for, é provável que ainda vamos saber a verdade um dia, ainda que ela não engrandeça o currículo de ninguém. 

A pergunta que se faz agora é: qual o impacto o fato de hoje terá nos desdobramentos eleitorais de 2018? 

O PMDB manterá sua programação de manter Puccinelli à frente do partido no próximo sábado?

Difícil saber. Outros acontecimentos supervenientes, envolvendo outros agentes políticos, podem encobrir os atuais acontecimentos. 

Há uma tendência de a sociedade dissipar cenas passadas e ficar focada no escândalo do momento. 

Se lá na frente o escândalo da hora atingir outros agentes ou postulantes, nesse jogo de tira-põe alguém poderá ganhar ou perder. Tudo dependerá o momento e do clima emocional da campanha eleitoral. 

Mesmo assim, o ex-governador terá que repensar sua vida, visto que, dependendo da extensão dos danos, os índices de preferência do eleitorado poderão cair irreversivelmente.

Só que é preciso esperar decantar o atual acontecimento para avaliar as chances de cada pré-candidato lá pelo mês de julho de 2018.

Olhando por essa perspectiva, é preciso reconhecer que a tornozeleira eletrônica, em médio prazo, não colocou Puccinelli fora do jogo. A dúvida agora é se subindo alguns degraus acima nessa escala de desgaste ele venha a se tornar carta fora do baralho. 

Ninguém pode afirmar nada com certeza. Mesmo que no momento alguns comemorem e outros desmoronem. 



Assisti a Mindhunter (Netflix) numa tacada. Confesso que nos dois primeiros capítulos da série pensei em desistir. Jonathan Grof (no pap...


Assisti a Mindhunter (Netflix) numa tacada. Confesso que nos dois primeiros capítulos da série pensei em desistir. Jonathan Grof (no papel do agente do FBI Holden Ford) não estava funcionando como um policial esquizóide que, nos anos 70, começou a dar os primeiros passos na chamada investigação de perfis psicológicos de assassinos seriais.

Holt McCallany (como Bill Tench), companheiro de jornada de Holden, funcionava melhor como o canastrão de sempre, o do policial durão, meio tosco, bem naquele estilo Bolsonaro de ser.

Do terceiro capítulo em diante ( de um total de 10) a coisa melhora. Conseguimos ver as engrenagens do FBI funcionando para entrar num novo nicho de ação policial, tentando compreender as motivações das pessoas que matam por prazer, por distúrbio mental ou por mera patologia momentânea.

A polícia, enfim, começa a estudar rudimentarmente aquilo que está na gênese dos crimes que são acionados por gatilhos emocionais, levando personagens sombrios pelos caminhos estranhos do vale da morte, sem que isso signifique qualquer emoção ou sentimento de culpa.

Holden e Bill entrevistam assassinos tenebrosos nas penitenciárias do País. Conhecemos assim malucos de todas as espécies, gente aparentemente normal que terminou sendo presa por ter decapitado a mãe e o pai, matado com requintes de crueldade mocinhas perdidas, estuprado e esquartejado famílias inteiras, como se estivessem fazendo um passeio pelo jardim do Éden.

No sexto capítulo Mindhunter agarra pelo pescoço criando aquela relação viciante que o arrasta pela madrugada adentro forçando-o a ver mais uma parte.

E assim penetramos no “puritanismo” da chamada América profunda, com policiais obedientes às regras morais que, no limite, talvez faça com que o público brasileiro imagine os EUA seja um País perfeito, habitado por seres perfeitos, exceto por aquele seleto grupo de sociopatas que vamos conhecendo a cada capítulo.

No final, a obra se fecha( deixando espaço para a próxima temporada), desenhando um painel curioso dos anos 70 (mesmo com exageros e irrealismos), do qual estamos, na atualidade, percebendo cada vez conexões interessantes com esse período histórico, mesmo porque não havia celulares, computadores sofisticados e tudo era feito no muque, na intuição e com as idéias do Dr. Freud.

Se eu tivesse que recomendar uma série para ser assistida num fim de semana, certamente seria Mindhunter.  Apesar do clima pesado que o cerca, o jogo bem humorado entre Holden e Bill (mesmo com a dramaticidade das relações que os cercam) permite que acompanhemos o horror com certa leveza.  

“Os caminhos do Bem e do Mal cruzaram-se na porta do cofre”, Sandro Vaia Em setembro deste ano, uma notícia movimentou a mídia campo...


“Os caminhos do Bem e do Mal cruzaram-se na porta do cofre”, Sandro Vaia

Em setembro deste ano, uma notícia movimentou a mídia campo-grandense. Matérias publicadas em blogs e sites colocavam em xeque a lisura e a isenção do Ministério Público Estadual por conta de negócio firmado com uma empresa imobiliária, que teria construído um prédio especialmente para atender ao MPE, antes mesmo de o contrato ter sido assinado. 

Para piorar as coisas, o negócio foi feito no escurinho do cinema, sem licitação, o que levanta suspeitas cabeludas sobre a motivação do contrato.

No meio dessa história toda tem ainda um aluguel de R$ 80 mil mensais e o faturamento do proprietário próximo à casa dos cinco milhões, em cinco anos. Além disso, há um clima de contrariedade de empresários do setor imobiliário, que teriam interesse em participar do processo licitatório.

Entre reportagens e artigos publicados sobre o assunto, alguns veículos chegaram ao mesmo denominador apontando suspeição no procedimento. Em outras palavras, havia caroço demais nesse angu.

O órgão chegou a negar a notícia de que o prédio seria locado. Em seguida, informou que foram enviados ofícios às imobiliárias de Campo Grande para fazer consultas sobre o imóvel disponível para locação. Não convenceu e a coisa foi ficando complicada.

O tempo passou, chegamos mais perto do fim de ano, festejos, férias, distrações do cotidiano e, como se sabe, ninguém mais presta atenção a esses detalhes. O assunto foi saindo dos holofotes e passou a receber tratamento tímido da imprensa, com o MPE apostando no esquecimento coletivo para suavizar os danos que feriram sua credibilidade construída – como se diz - sobre um pedestal de barro.

Na semana passada, o assunto voltou à tona com um texto interessante publicado no blog do experiente jornalista Nélio Brandão.  Na matéria, ele (com embasamento jurídico) alerta de para a falta de transparência do MPE. 

A atitude – segundo o jornalista - pode gerar algumas implicações jurídicas. A primeira delas está associada aos empresários do setor imobiliário, prejudicados por não terem sido convidados para a licitação e que, por esse motivo, podem tentar impugnar judicialmente o contrato, alegando impedimento da empresa contratada por falta de Certidão Negativa de Débitos.

A segunda, mais robusta, aponta que um cidadão é parte legítima para judicializar o aluguel como ato lesivo ao patrimônio público, buscando proteger a moralidade administrativa. Essa ação é isenta de custas judiciais e do ônus da sucumbência, salvo quando provada má-fé do autor. 

Pelo sim ou pelo não, o MPE deveria esclarecer o assunto adotando critérios mais transparentes no trato com a coisa pública. A atitude teria evitado todo esse desgaste de imagem. Até pela simbologia que carrega como guardiões da moralidade pública, com amplo apoio popular.

Quem não se lembra da turma de entusiastas com ideais de pureza que moveu um abraço coletivo apoiando as ações do Gaeco no combate à corrupção tempos atrás? 

O mundo parece mesmo invertido. Daquele grupo de manifestantes na porta do Gaeco nenhum pio sobre o misterioso aluguel. Gente de moral seletiva, curtida no caldo do ressentimento social e com o ranço direcionado só a quem participa da vida política. 

Na vida jurídica, as coisas permanecem como estão e tudo segue indefinido com uma sociedade gritando por ética, transparência e justiça, mas encarando com naturalidade o contrato entre o MPE e a empresa de empreendimentos. Vai entender.


*jornalista

Recebo inúmeras cartas e mensagens da Associação dos Auditores de Controle Externo do Tribunal de Contas de MS – entidade afiliada à Asso...


Recebo inúmeras cartas e mensagens da Associação dos Auditores de Controle Externo do Tribunal de Contas de MS – entidade afiliada à Associação Nacional dos Auditores de Controle Externo dos Tribunais de Contas do Brasil (ANTC) – sobre a disposição da entidade de alterar os rumos das escolhas de novos conselheiros da Casa. 

Não tenho ideia da força da representação das lideranças nem sei se elas vão conseguir criar sintonia com a sociedade para sensibilizá-la de que o procedimento ora em curso, mesmo tendo respaldo legal, exala odores imorais por onde passa. 

De acordo com a carta de um membro da entidade local “somos contra qualquer nomeação que não cumpra os requisitos constitucionais”, afirma. “As pessoas indicadas têm o ônus de comprovar que cumpre tais requisitos”, reitera. Ou seja, devem provar capacidade técnica, conhecimento jurídico, conduta ilibada etc, etc. 

Isso é fácil, pelo que se nota no perfil dos atuais conselheiros.

Como se sabe, os Tribunais de Contas são órgãos auxiliares dos poderes legislativos. Eles analisam, controlam, fiscalizam e corrigem condutas que envolvem recursos públicos. 

Seu regimento interno confere grandes poderes aos conselheiros e a corporação no fundo, no fundo, age como órgão independente. 

Desde o Império órgãos de controle como esses funcionam como meros batedores de carimbo escrito com a insígnia “Amém” aos interesses poderosos. 

Àqueles que porventura sejam condenados as normas internas lhes facultam o recurso de recorrer ad infinitum nas decisões, fazendo o processo voltar ao nascedouro e, assim, manter tudo como está por prazo indefinido. 

No nosso TCE/MS há uma curiosidade: nunca, em nenhum caso, houve defesa oral nas reuniões do Pleno para defesa dos interesses dos acusados. Tudo tramita nos labirintos da burocracia.

Na verdade, uma condenação do TCE tem um efeito meramente político, semelhante a um marketing negativo a perseguir aqueles que, por inépcia ou negligência, esqueceram de anexar uma nota fiscal de R$ 100,00 ao processo ou colocaram uma vírgula errada num edital de licitação. 

Claro, existem coisas cabeludas e, nos últimos tempos, parece haver fumaça de rigor no ar. Mas alguém da população conhece gente que ficou pobre por pagar multas ao TCE?

Até dentro dos Tribunais – instituição que devia ser acima de qualquer suspeita - tem coisas pegando fogo: tempos atrás a PF colocou no xilindró 6 dos 7 conselheiros do Rio de Janeiro. Aqui em MS o homem que cuidava do dinheiro da corte está enfrentando processos e tem gente de cabelo arrepiado correndo o risco de conhecer uma cela 3X4 com vaso sanitário no chão. 

O nosso Tribunal de Contas, verdadeiramente, não é uma congregação mariana. 

Não sei do alcance e a influência da Associação dos Auditores de Controle Externo do Tribunal de Contas de MS, mas será que esse pessoal tem força para tirar a corte de sua inércia tumular?

Eles podem estar se mexendo por interesses corporativos. Ou ainda podem ter entrado nesse fluxo de revisão de conceitos de cidadania, tentando romper com a inércia do TCE/MS. 

Vamos acompanhar os fatos.

A entidade poderá ser usada como massa de manobra para encobrir interesses inconfessáveis de pessoas espertas na transitam nessa área. Não sei. 

À distância percebo movimentos meio ingênuos, pois não tenho certeza de que auditores avancem no rumo para judicializar o processo de escolha dos novos conselheiros, radicalizando o jogo, ou ainda possam se movimentar politicamente para colocar o assunto em pauta na sociedade esclarecida, batendo bumbo na OAB e outros órgãos. 

Os dois nomes cogitados para o cargo – o secretário de Finanças Márcio Monteiro e o deputado Flávio Kayatt – nasceram com vícios de origem. O primeiro está contaminado com o lixo atômico das delações da JBS. Certamente, ele dará de ombros e, como já foi orientado pelos seus advogados, dirá que seu processo está em curso e a lei prevê presunção de inocência.

O outro só terá que desmentir o que disse lá atrás que queria ir para o TCE para garantir uma “boa aposentadoria para a esposa”.

Na linha fina dos conceitos éticos e morais ambos não passam nas provas escrita e oral para ganhar a cadeira. 

Só passam de fase por causa dos critérios políticos pautados pelo fisiologismo e patrimonialismo que vigoram em nosso País.   

Mas isso até as capivaras e guatis do Parque dos Poderes sabem.

Triste.



Morrer Correr Correr Correr O olhar  é fugaz Na hora de morrer Final (ato IV) Vou abrir a porta: Do lado...




Morrer

Correr

Correr


Correr


O olhar 


é fugaz


Na hora de morrer




Final (ato IV)


Vou abrir a porta:
Do lado de dentro
Não vejo nada
Sigo Adiante:
Na sala escura
Há um espelho. 
O reflexo de
outra porta,
outra saída.
Atravesso o espelho
estou livre
de todas as imagens.
Sigo adiante: 
No vácuo
No vão espesso
onde me acho
Será o lugar que ficarei
para sempre
(Até o final)
No mesmo espaço.

Recebi esse texto da artista plástica Ana Ruas depois de publicar um poema no último domingo tendo como referência uma tela que vi em sua...


Recebi esse texto da artista plástica Ana Ruas depois de publicar um poema no último domingo tendo como referência uma tela que vi em sua casa tempos atrás. Ana, generosamente, enviou-me essa carta, que, na verdade, é mais do que isso: trata-se de uma leitura sobre seu processo de criação. Daí, o interesse de torná-la pública, mesmo sabendo, humildemente, que sua obra é muito mais importante que alguns rabiscos que traço. Obrigado Ana, não sei o motivo, mas esse quadro mexeu profundamente comigo. 

“Algumas horas se passaram e a tela continuava branca e imaculada, olhando p mim. Isso era assustador! Entre ela e eu, além dos 40 cm, havia os ponteiros do relógio que insistiam em nos distanciar. Eu estava resistindo em dar a primeira pincelada! Precisava adiar a quarta tela da série Redes, pois novas imagens povoavam meus pensamentos, naqueles dias. 

A água tocando a areia, o volume das ondas e o esforço que eu fazia para ver a linha do horizonte me trouxe lembranças do meu primeiro contato com o mar, aos 15 anos de idade. 

Lembro que, paralisada, olhei fixamente aquela imensidão, tentando disfarçar para que nenhum de meus amigos descobrisse que eu nunca havia tocado meus pés na areia e água salgada do mar, antes disso. 

Mas, isso já faz muito tempo! Neste verão, eu observava minha filha dançando sem parar na areia, chutando a água e ignorando a placa escrito PERIGO. Com minha máquina fotográfica tentei eternizar a sorte dela em conhecer o mar ainda criança. 

Sentia como ela curtia o toque, o vento, o cheiro, sem disfarçar aquelas sensações. Ela estava inserida no cenário, o azul que banhava tudo, criava a atmosfera e eu de pé, sentada ou deitada no chão, clicava para congelar e engarrafar o tempo! Retornando ao ateliê pensava que para ser honesta comigo mesma, não fazia sentido pintar outra coisa, precisava pintar estas memórias. 

Então, respirei fundo e abri todas as bisnagas de azuis, brancos e verdes e me joguei com o coração acelerado no processo de construir, eliminar áreas e de penetrar na pintura . Dentro dos dois metros quadrados, só ficava as sensações e a vontade de mostrar através das cores e formas o que é indivisível para mim através das palavras. 

Pintei também a placa que a câmera fotográfica captou , mas ela não fazia nenhum sentido, e como cada pincelada é uma tomada de inúmeras decisões, decidi substituir a palavra original PERIGO por BE HAPPY.

Combinava mais com a Helena! Dei corpo à tela por alguns dias, depois a deixei pendurada na parede, ainda inacabada. Precisava de mais fôlego para mergulhar nela de novo. Deixei, de propósito, em uma parede exposta aos olhos “dos mais curiosos”. É um exercício que faço para eu ficar envergonhada e comprometida e, finalmente, repensar a pintura. 

Penso em concluir em breve, e, se ainda não o fiz, é porque ainda está em processo visceral e assim, eu consigo sentir mais o cheiro do mar e lacrimejar com o azul do céu. 

Se finalizo, me despeço um pouco, ainda que só um pouco, da oportunidade de lembrar da sombra da menina na areia, da transparência da roupa, do cabelo voando, das gargalhadas e do grito : 'Mãe, olha que lindooo!!!!' 

Passado um tempo, entra você no meu ateliê, observa a pintura e toma a decisão de usar seu precioso tempo escrevendo um poema sobre ela. 

Dante, hoje é domingo! Recebi o poema dei um grito de felicidade, em pleno restaurante, quando abri o post e percebi, nas suas palavras , todas as minhas sensações. Hoje, eu tive a certeza: É o olhar do OUTRO que completa a nossa obra! 

Obrigada 

Carinhosamente Ana Ruas”


R esolvi manifestar minha tristeza com o Corinthians publicando este artigo. O texto é um desabafo sobre a queda do time na tabela faltan...


Resolvi manifestar minha tristeza com o Corinthians publicando este artigo. O texto é um desabafo sobre a queda do time na tabela faltando poucas rodadas para fim do Brasileirão. A equipe desaponta em campo e eu vivo uma espécie de pesadelo diário. 

Meu flagelo começa com manhãs reflexivas e culmina em noites insones. Mas o pior martírio fica nos corredores do serviço. Ali, no prédio onde cumpro expediente e circulo pelas repartições, colegas atrevidos apontam o dedo para mim zoando: “Cadê o Timão campeão?”. 

A pergunta emblemática me deixa cabisbaixo e sem resposta. Até o término da competição, essa será minha rotina. O pior de tudo é que não tenho mais coragem de olhar para aqueles são-paulinos arrogantes e estufar o peito profetizando que o Tricolor será rebaixado. Até isso foi tirado de mim. Os caras estão jogando uma bola redonda e Hernanes vai livrar a equipe da degola.

Com a estima lá no chinelo, percebo grupos de outras agremiações comemorando o fracasso do meu time. Ouço risadas precedendo um tapinha nas costas e logo em seguida a frase: “É só um jogo de futebol, vai passar”. 

Saudosista, por esses dias, evoquei a lembrança do gordinho Ronaldo Fenômeno, que mesmo acima do peso guardava a bola nas redes. Dribles desconcertantes, chapéu no goleiro e gols magistrais. Éramos felizes e não sabíamos.

Infelizmente não temos mais aquele tecido adiposo em campo e sobrou a parca inspiração da dupla Rodriguinho e Jadson (que faz dupla com Jads?). Quanta mediocridade nas quatro linhas.

Na próxima rodada o Corinthians enfrenta seu maior rival: “Parmera”. Será um jogo estratégico, com direito a choro, revertério intestinal e muita emoção. Quem errar menos leva três pontos para casa.

A equipe do Palestra Itália encostou na liderança e está há cinco pontos de alcançar o Timão no topo da tabela. Em se tratando de um clássico regional é difícil prever um resultado.

O favorito é o Verdão que no segundo turno tratora os adversários. Já o Corinthians segue na ponta, mas com dificuldade de respirar na liderança, sobrevive com ajuda de aparelhos. 

Caso o alvinegro consiga a vitória, será o primeiro resultado convincente no segundo turno e praticamente sepulta as pretensões palestrinas, com a equipe do Parque São Jorge abrindo novamente 8 pontos para o Palmeiras.

Santos e Grêmio ainda estão vivos na competição, com chances numéricas de alcançar a liderança. Mas dificilmente isso vai acontecer. O tricolor gaúcho está mais interessado na libertadores e  o Peixe pouco inspirado, não convence.

Domingo o Corinthians terá a chance de se redimir. Joga em casa, os ingressos estão esgotados e uma torcida entusiasmada promete empurrar Jô, Arana e companhia para cima do Palmeiras. Basta saber se a mesma motivação das arquibancadas vai embalar o time em campo. Apostas?

Jornalista*

Esses três poemas compõe o livro que estou dando por encerrado. O título (ainda provisório) será "Cabeça de Chapéu" e reunirá...


Esses três poemas compõe o livro que estou dando por encerrado. O título (ainda provisório) será "Cabeça de Chapéu" e reunirá um trabalho que estou desenvolvendo há cerca de três anos. Não sei ainda se será satisfatório. O poema tem sua perfídia: ele esconde sua natureza estética na ilusão de nossa vaidade. Mesmo assim, chega um momento da vida que temos que correr todos os riscos. Afinal, o que temos a perder?


Pausa IV

No futuro,

Continuaremos a falar do futuro

O tempo circulará ao redor 

de  nossas vidas

Emanando o mesmo tema

E tudo permanecerá igual: 

Tudo se repetirá
Até nas infinitas coisas; 
Em si mesmas
Em círculos constritos
Sobre as mesmas tragédias
De toda a história que foi e será.


Menina na praia
( sobre uma tela de Ana Ruas)

Na margem, 
A menina esvoaça seu vestido
E transforma o azul imenso
No puro vestíbulo do ar.

Na paisagem,
O olor enevoa-se na tênue brisa
Dos passos de quem se lança
Pensando que o amor não tem mistério nem mar.

Suavemente, 
As ondas quebram-se na areia
Nos desdobramentos da cor.

E assim chusmaça o vento inexistente
(De sal e água)
Dando vida à tela branca
Na planura da beleza e da dor.


O dia do homem Drummondiano

- Sou o homem que recebe cartas
Leva o cachorro pra passear
Olha pela janela
Anda pelas ruas
Atravessa na contramão
Vai ao bar
Segue em frente

- Eu sou o homem que olha os pássaros
Que levanta cedo
Que amarra os sapatos
Olha o dia
Dorme à noite
Depois – só depois – 
Bebe uísque e lê poemas de Petrarca.

Tenho lido essa pergunta cada vez mais. As viúvas de Dilma estão revoltadas. Querem saber o que aconteceu com “aquela gente” que batia p...

Tenho lido essa pergunta cada vez mais. As viúvas de Dilma estão revoltadas. Querem saber o que aconteceu com “aquela gente” que batia panelas pelo Brasil afora toda a vez que a “presidenta” aparecia na TV. 

Enfim, trata-se de uma provocação contra a atual letargia da classe média brasileira em relação ao governo Temer. 

Na cabeça dos inconformados com o impeachment do poste de Lula, o mesmo devia estar acontecendo agora, pois o atual mandatário da Nação praticou crimes mais graves do que Dilma. A história ainda vai dizer, por isso devemos esperar o resumo da ópera antes de tirar conclusões.

Claro, essa turma sabe qual é a resposta sobre a falta de panelas nas janelas dos apartamentos. 
O quadro é tão esquisito que acho que Temer talvez possa aparecer fazendo chuvinha com notas de dólares em rede nacional que não se ouvirá nem tilintar de talheres.

Qual o motivo? Primeiro, uma questão de imagem: ninguém agüentava a cara da mulher que arrastou o País para a pior crise financeira de todos os tempos e resistiu – contra todos os argumentos de que seria melhor renunciar para evitar mais desgaste da economia – por vaidade e arrogância. 

Segundo porque Michel Temer, com aquele estilo manequim de funerária, tem tempo certo de validade e tem – gostemos ou não - mantido certa estabilidade na economia. 

Mesmo cercado de uma camarilha de abutres, a massa tem a sensação de que ele representa a total irrelevância da política em nossas vidas, sabendo que logo, logo estará engendrado com longos processos judiciais. 

Temer é tão infame que nem panela merece. Nesse aspecto, aqueles que estão reclamando da ausência do tam-tam-tam deviam ficar felizes com a indiferença das massas silenciosas. 

Ela voltará a ficar barulhenta em 2018. Podem ter certeza.

Há mais de dez anos sou filiado ao PSDB. Ingressei no partido pelas mãos da ex-senadora Marisa Serrano. Até então, pertencia ao PPS. Com...


mais de dez anos sou filiado ao PSDB. Ingressei no partido pelas mãos da ex-senadora Marisa Serrano. Até então, pertencia ao PPS. Como fui assessor de imprensa de Marisa, ela formalizou o convite sob o argumento de que seria importante que eu agregasse a atividade profissional com a militância, ajudando o partido a produzir materiais de divulgação para ganhar espaço no Estado. 

Concordei. Exerci duas funções burocráticas dentro do tucanato. Fui diretor de comunicação do Instituto Teotônio Vilela de MS, sob a presidência do ex-deputado Ben Hur Ferreira (atividade não remunerada) e delegado do diretório municipal do PSDB de Campo Grande. 

Ao longo do tempo, fui servidor do senado federal nos mandatos de Marisa, Antonio Russo e Ruben Figueiró. 

Como militante, ajudei a coordenar em MS as campanhas de Geraldo Alckmin e José Serra. Como teórico e intelectual do partido organizei palestras para difundir nossos programas partidários e ajudei a promover debates sobre a social democracia brasileira. 

Em várias campanhas locais participei da preparação de candidatos a vereadores e a prefeitos para embasar temas de campanha, dando-lhes escopo teórico. 

Escrevi textos programáticos, artigos, programas de governo (inclusive o de Reinaldo Azambuja) e atuei diretamente na divulgação de campanhas em redes sociais. Fazia isso em horas noturnas, madrugada adentro, fora do expediente.

Pra quem não sabe, trabalhei e trabalho mais de 12 horas por dia, escrevendo, acompanhando o noticiário, lendo, pesquisando, preparando relatórios e fazendo anotações de dados que considero importante no dia a dia. Na verdade, trata-se de esforço interno, pouco visível, sem que isso desmereça os trabalhos operacionais de outros profissionais. 

Só que o tipo de trabalho jornalístico que proponho a fazer exige esforço físico e concentração permanentes. 

Toda a minha atividade no PSDB foi voluntária e não remunerada. Nunca pensei em trabalhar para um partido com a perspectiva de obter ganhos financeiros. Minha formação cristã arraigada acabou internalizando no meu pensamento que "dinheiro é coisa suja". Não consigo me libertar dessa herança mental. Alguém me ajuda?

Considerava meu salário no senado bom o suficiente para atuar em amplas atividades, tanto do ponto de vista institucional como político. Esse período me possibilitou ter uma das melhores bibliotecas da cidade.

No fundo, muitos colegas jornalistas vão concordar comigo, o mercado de trabalho local – suas características, suas precariedades, suas fragilidades – não permite muitas opções sem que nos afastemos do setor público. A iniciativa privada ainda é muito dependente dos governos. Essa é a realidade. 

Mesmo assim, meu envolvimento com o PSDB foi pleno: lia o Fernando Henrique, o José Serra, Pérsio Arida e toda essa turma de centro-esquerda do partido, acreditando que havia chance de fortalecer o centro político brasileiro atraindo parcelas da esquerda e direita moderadas para formular um novo projeto de País, que seguisse um caminho oposto ao populismo e ao patrimonialismo. 

Na esfera local, segui o mesmo padrão: participava de um grupo dentro do PSDB que agregava militantes e lideranças que permeavam os espectros políticos ditos acima, sedimentado na luta contra o petismo mafioso que havia assumido o poder. (Ressalto que reconheço que existem alas petistas corretas e coerentes, mas que, com o tempo, tornaram-se minoritárias, deixando de ser opção por inanição). 

Na campanha de Reinaldo Azambuja (2014) vi duas coisas que me chamaram a atenção. Uma de caráter político, que foi sua intensa proximidade com o ex-senador Delcídio do Amaral. 

Outra, pessoal, pois observei que Azambuja sempre andava cercado de seguranças, algo que, convenhamos, para a minha formação democrática, me parecia algo foram de tom. Quem se cerca de gente armada tem um pé na máfia, pensava.

Do ponto de vista histórico, acho que ainda não é o momento de se relatar em detalhes sobre os motivos pelos quais eu decidi abrir dissidência e passei a ser crítico do governo Azambuja. 

Para que eu fosse fazer isso, teria que citar nomes, conversas, fazer confidências impróprias, enfim, ia aborrecer pessoas que gosto e admiro. 

Abri meu blog porque todas as portas do mercado de trabalho se fecharam. Nunca ganhei dinheiro com isso. Mas é uma válvula de escape que acredito ser necessária para o debate Republicano.

Sabia que no momento em que adotasse um tom crítico e contundente contra o tucanato, a resposta seria de que esse “rancor” - como eles dizem - era nutrido pelo fato de não ter conseguido uma “boquinha” no governo, coisa típica de pessoas – como costuma afirmar o J. Serra – que medem os outros pela sua própria régua. 

Pagamos o preço pelos nossos atos; mas é melhor enfrentar dificuldades na vida do que vender sua dignidade. 

Por isso, mesmo recebendo pedidos insistentes do meu grupo político para que ocupasse determinada função no governo, tergiversei. Quando as pressões cresceram e se tornaram insuportáveis, decidi, num gesto radical, escrever um artigo para, como se diz, detonar a ponte para que não houvesse possibilidade de retorno. 

Azambuja ficou aborrecido e começou um processo de perseguição sistemática por parte de sua turma. Não sei se ele (Azam) tem conhecimento dos detalhes desse processo.

De minha parte, queria ficar afastado do núcleo governamental porque achei inadmissível que Azambuja nomeasse Sérgio de Paula ( e outros) como dono do governo, personagem que nunca apreciei, nunca fui próximo, sabendo, por experiência e temperamento, que em poucos meses entraria em rota de colisão com ele e sua tropa de choque. 

Antevi que Azambuja estava construindo seu próprio desastre. Conhecia todo seu entorno. E aprendi com a vida que você é aquilo que suas companhias revelam. A essência do seu ser são sua família e seus amigos. 

Digo com muita tranqüilidade: por prevenção, confusão momentânea, intuição e sentimento persecutório tomei a decisão, por livre e espontânea vontade, de ficar longe do governo Azambuja, colocando a minha massa crítica contra ele. Concluí rápido que seu governo era inservível. 

Não existiu, portanto, em nenhum momento nessa época contrariedade de ordem fisiológica. 

Fui eu que não quis participar da República de Maracaju. 

Fui eu que insisti continuar trabalhando próximo da ex-senadora Marisa Serrado, no TCE, pois imaginei que a nossa afinidade intelectual me protegeria das pressões de natureza política que ela passou a receber depois que fui nomeado para trabalhar na Escola do TCE. 

Claro, ela não suportou e cedeu. Compreendi. Mas ao mesmo tempo fiquei liberado para criticá-la, até em benefício de sua história e sua reputação. 

No próximo ano tem eleição. O tucanato militonto que não conhece meu percurso dentro do PSDB insistirá na tese do “ranço”, da “inveja”, dos “interesses contrariados”, mas o tempo e a vida mostrarão a imarcescível verdade das coisas.

Por enquanto, ficaremos por aqui...

Não posso afirmar se a deputada Tereza Cristina é boa ou má parlamentar. Do ponto de vista institucional, seu mandato me parece insípid...


Não posso afirmar se a deputada Tereza Cristina é boa ou má parlamentar. Do ponto de vista institucional, seu mandato me parece insípido, incolor e inodoro. Do ponto de vista político, é um desastre. 


As informações sobre as ações parlamentares de Tereza não me chegam. Ela é ruim de marketing. 



O noticiário perceptível em torno dela só destaca problemas. 



Há meses a pauta que lhe cerca é a da expulsão do PSB. Se um parlamentar é indesejado em seu partido, alguma coisa está errada. Pelo menos aos olhos de quem não compreende o emaranhado sutil da vida partidária.



Claro, sabemos como ela se meteu em sua própria crise: contrariou a ala esquerda do PSB posicionando-se a favor do presidente Temer, que a fustiga com o desejo de lhe retirar das mãos o cargo de líder do partido na Câmara dos Deputados. 



Enfim, o velho jogo do poder.



O cargo de liderança traz vantagens: cargos, verbas indenizatórias, visibilidade, tempo de tribuna, mordomias e trânsito fácil nos ministérios. 



Mas Tereza tem uma personalidade errática. 



Na verdade, ela cometeu um equívoco de origem. Sempre foi instrumento e nunca uma agente política de verdade. Ingressou no PSB a mando do caciquismo local. Nunca foi de esquerda. 



Sempre teve vinculação com o chamado “conservadorismo fisiológico” da direita patrimonialista. 



Seus interesses empresariais e paroquiais sempre falaram mais alto do que sua postura ideológica. Ou seja, ela sempre esteve no lugar errado por conveniência e cumprimento de ordens. Nunca lhe passou pela cabeça se libertar desses esquemas para fazer um mandato mais consistente. 



Tereza cometeu o erro da ilusão: achou que seria fácil ficar dentro de um campo ideológico que nunca fora o seu,  principalmente no cipoal de contradições que é a grande política. Ela estava destinada ao baixo clero, mas foi catapultada a uma função que nunca devia ser dela, por vocação e habilidade. 



Claro, ela tentou enganar seus pares. Ela estava acostumada e mentir como fez no PSDB local e, depois, tornando-se massa de manobra do PMDB, até chegar ao socialismo de resultados que a terminou caracterizando. 



Agora, a notícia de sua expulsão tornou-se uma referência política de seu mandato. Cabe a qualquer cidadão perguntar quais as razões que levam uma pessoa a ficar num partido que, dia sim dia não, pede sua cabeça.



Pior: leva-se à incômoda posição de ficar ao mesmo tempo se oferecendo no mercado do fisiologismo explícito. 



Coitada. No final, em 2018, caberá à deputada um lugar de destaque na ribalta do anonimato, por mais paradoxal que isso pareça.



C ostumeiramente gestores das mais diversas regiões do nosso País, estados, municípios entregam obras não concluídas aos seus sucessores....


Costumeiramente gestores das mais diversas regiões do nosso País, estados, municípios entregam obras não concluídas aos seus sucessores. Com vaidade à flor da pele, muitos desses (geralmente opositores) carecem do empenho e bom senso para conclusão destas ações. 

O ego inflado não lhes permite concluir obras que estejam iniciadas por outros gestores que não sejam eles próprios. O que é obrigação e dever da função dissolve-se numa atmosfera difusa de cálculo político.

A população perde. O Brasil tem abortado recursos que poderiam estar sendo úteis a outros setores da administração pública como saúde e educação atualmente em coma profundo. 

Épocas passadas hospitais eram setores de recuperação. Hoje perdemos a vida nestes ambientes como estivéssemos diante frigoríficos de pessoas. Sabemos o dia da entrada, mas, desconhecemos o momento da saída.

Gestores precisam se atentar que momentos políticos passam. Os atos de hoje refletirão em seus filhos/netos no amanhã. Nosso País está vivenciando um momento sublime de mudança comportamental extrema.

É nítida a nova concepção de política. Hoje temos um aquário do pantanal paralisado por “N” motivos em nosso estado. Não vem ao caso as razões pelas quais o gestor anterior não terminou a obra ou se o atual não a vê como prioridade. O momento é de concluir tal feito para não descartar ao lixo impostos pagos com o suor honesto do trabalhador, cidadãos sul-mato-grossenses.

No auge de uma crise que o País enfrenta - conseqüência de bandidos do colarinho branco - corrói os nervos assistir uma obra daquele quilate estagnada sem prazo para conclusão. 

A irresponsabilidade destes gestores precisa haver fim. Segue sugestão a Assembléia Legislativa/MS para que elaborem e apreciem projetos de responsabilização de gestores que deixarem obras inacabadas em nosso estado durante respectivo mandato. Dinheiro público é sagrado, advém das mais diversas histórias de sofrimento do nosso povo. 

Que Deus permita discernimentos aos homens públicos para que deixem a fatuidade de lado e façam seu dever de casa. Pouco importa o super-herói da façanha. Importante aos olhos íntegros é que verbas públicas não sejam descartadas como as fétidas “zorbas” destes gestores rechaçadas rotineiramente em suas vivendas.

Obras congeladas em nosso País precisam se tornar títulos de acórdãos em condenações judiciais. Gestores ao assumirem casos práticos como estes devem como obrigação concluí-los rigorosamente antes do encerramento do seu mandato. 

Parafraseando Guimarães Rosa: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. 

Sejamos mais sensatos. Menos vaidade, por favor.


Advogado 

                                            Antes da chuva começar, Jobson apareceu de supetão na porta da casa da ex-mulher. Disse qu...

                                           

Antes da chuva começar, Jobson apareceu de supetão na porta da casa da ex-mulher. Disse que percebeu nuvens carregadas no céu e com medo dos trovões, fora apanhar as filhas para levá-las à escola.

Mal sabia, mas suas palavras eram prenúncio da chuvarada que desandou em dilúvio e detonou as ruas do bairro Tiradentes, deixando entulhos, destroços e galhos espalhados pela vizinhança.

Com o mundo desabando lá fora, Katyellen teve tempo de passar um café fresquinho e por o papo em dia com o ex-marido. Antes do início da prosa, foi ao banheiro lavar o rosto para melhorar a aparência.

Havia um clima de ciúmes no ar desde que katy passou a frequentar as salas de cinema do shopping. Jobson não gostou de vê-la solta e circulando entre vitrines e corredores. O cara ficou puto, chegando a afirmar aos amigos que mulher sua ninguém tasca. 

Katy soube da conversa e não gostou de ser tratada como um objeto particular. Pelo contrário, desceu dos tamancos e repreendeu o ex. Por causa disso, passaram algumas semanas em silêncio, sem conversar. 

Ela lembrou do fato enquanto servia o café. Em seguida alertou o ex-marido para não tratá-la mais como propriedade. Jobson ficou quietinho bebericando aquele líquido forte. Fingiu que concordou, mas foi só para não aumentar o atrito e tentar uma reaproximação futura com a ex mulher. 

A tempestade tomava gosto pelo bairro quando a bina do celular dele avisou. Era Bambina, a paraguaia que Jobson arrumou na fronteira. Com cara de assustado, atendeu a ligação sem jeito, prometendo ligar mais tarde, mas Katy estava fora de órbita e nem percebeu a precaução do rapaz.

Jobson, esperto que só, não dava bandeira porque lá no fundo, tinha a pretensão de manter as duas sobre custódia, fazendo  muito bem esse jogo de homem que dava o bote na hora certa. 

Durante o papo com Katy, chegou a tocá-la com os dedos, em uma demonstração teatral de carinho e saudade. O passo seguinte seria envolvê-la em seus braços, mas foi interrompido por uma das filhas pedindo dinheiro para comprar lanche na escola.

Katy, sem jeito, percebeu que estava caindo novamente na lábia do ex e recolheu depressa os braços. Em seguida, foi saindo de mansinho alegando que precisava dar conta da casa, como lavar a louça suja do jantar e arrumar os cômodos. 

Com as filhas por perto, Jobson ficou meio acanhado em continuar as investidas, mas percebeu nos olhos da ex uma clima amistoso para uma possível reconciliação.

Antes de partir com as crianças, eles se olharam com Jobson acariciando seu rosto, dizendo coisas bonitas que só os poetas dizem em momentos de amor. Katy ficou vermelha e ele encerrou o jogo de sedução com uma piscadela malandra. 

Dois dias depois, ele estava de volta. Desta vez apareceu na hora do almoço levando um frango assado. As meninas adoraram e agradeceram ao pai. Katy, surpresa, foi logo colocando mais um prato na mesa e o convidou para sentar. 

Ele recusou a oferta, embora esboçasse uma cara de famigerado por fora. Era para fazer tipo e tomar coragem convidando-se para assistir o jogo por lá, logo mais à noite.

Katy concordou de imediato e o intimou pra ficar com as crianças enquanto ela pegaria o cineminha das oito com um grupo de amigas do serviço. 

A proposta deixou o cara maluco de ciúmes, mas Katy não arredou o pé da decisão. Obstinada, ainda o ameaçou dizendo que se ele não ficasse com as filhas, as meninas passariam à noite na casa dos avós, lá no Aero Rancho. 

Não teve jeito e Jobs, muito a contragosto, topou a proposta. A parada incluía ainda fazer o lanche das crias e ajudá- las nos deveres escolares. 

No horário marcado, ele apareceu  carregando um engradado de cerveja e um casco de refrigerante para as crianças. Com a cara amarrada, esclareceu que zelava pelas virtudes da ex-mulher e até se ofereceu para levá-la ao shopping. Ela recusou alegando ter agendado o encontro com as amigas no ponto de ônibus.

Passavam das onze quando Katy retornou. Apontou o nariz dentro de casa e percebeu aquele clima de felicidade conjugal dos tempos antigos: tudo em silêncio, as crianças na cama e Jobson premeditadamente deitado de cueca no quarto. 

Para não fazer barulho, ela entrou na ponta dos pés só para apanhar a camisola e dormir na sala, mas foi surpreendida com aquele homem decomposto e tenso, efluindo desejo. 

Tomou um susto e pensou em ser possuída por ele. Depois, foi só Jobson estender os braços pra ela cair na cama abduzida por aquelas mãos enormes e envolventes. A junção daqueles corpos ardentes, fez ranger a cama, com Jobson terminando à noite como herói.

Depois da madrugada festiva com a ex -mulher, ele saiu apurado rumo a Ponta Porã. Era sexta-feira, dia em que Jobson atacava em outra freguesia e concentrava seus esforços nas programações paraguaias. Antes de fechar a porta, deixou um bilhetinho carinho para ex. Deu certo, ela gostou.

Jobson chegava na fronteira todo entusiasmado cantarolando um clássico da banda The Doors. A primeira coisa que dizia para namorada paraguaia era o refrão: “Come baby Like my Fire”. Ela não entendia nada, mas respondia recitando uma guarânia: “Una noche tibia nos conocimos, junto al lago azul de Ypacaraí”.

O cara estava perdidamente apaixonado por aquela mulher. Era comum vê-lo postando imagens no Snap tomando tereré, enquanto enaltecia os predicados da paraguaia. Para os amigos, Jobson confessava que vestida ninguém dizia, mas entre quatro paredes aquelas ancas tinham seu valor e seus encantos. 

Com o ex-marido na fronteira, Katy passou todo fim de semana pensando em reatar o casamento. Olhava fotos da família e cheirava uma muda de roupa que Jobson esqueceu por lá. Ela suspeitava das aventuras em Ponta Porã e, por isso, queria tirar tudo a limpo antes de tentar a reconciliação.

Na segunda feira, ela o procurou para conversar. Estava otimista. Ele também. A conversa aconteceu no período em que a casa estava vazia, com as crianças na escola. Era tudo ou nada.

O papo começou com Katy entusiasmada confessando seus sentimentos e enaltecendo as qualidades do ex como pai. Ele agradeceu e retribuiu os elogios. Tudo caminhava para um final feliz e o coração de ambos começou a bater forte.

Mas foi só ela questionar as idas de Jobson para a fronteira que a discórdia apareceu. Ele não concordou alegando compromissos profissionais no Paraguai, onde iria trabalhar nos fins de semana com recorte de adesivos para placas publicitárias.

Ela não aceitou os motivos e a reaproximação melou. A coisa terminou em bate boca com Jobson enfurecido falando toda a verdade. Após o silêncio, um Jobson mais calmo começou a pontuar os motivos, mas ela recusava o diálogo tapando os ouvidos.

Como última tentativa, ele evocou o passado da família alegando que não tinha como ser diferente já que herdara pela corrente sanguínea, o comportamento e mulherengo dos dois avôs.

Sem saída, usou de um engenho genético culpando o DNA familiar e o excesso de testosterona pelas suas estrepulias conjugais. Katy contrapôs com eficiência os argumentos dele, dizendo que Jobs tinha culpa no cartório e com um passado que depunha contra qualquer reputação. 

Com a voz embargada, ela colocou um ponto final na história de ambos, dizendo dessas coisas fortes de cortar o coração. Era o fim de um ciclo e Jobson saia de cena desta relação para cair de vez na gandaia.

A bem da verdade, única coisa que morava naquela cabeça era o desejo por mulheres e farras. Sem Katy, Jobson se arrumou por aqui com uma pirigueti da Vila Pioneiros, qual intercalava as visitas com a paraguaia. A escala incluía encontros sexuais semanais, com dia e hora marcada.

Mas nem tudo era só romance. Com o orgulho ferido pela rejeição de Katy, Jobs passou a segui-la nas baladas. Quem circula pela região dos shoppings, diz que é comum vê-lo encervejado, cabeça baixa e vigiando os passos da ex.

Recentemente, em uma visita ao sobrenatural, saiu da consulta às cartas mais confiante e com a certeza de que a coisa com Katy ainda não terminou. Ele ficou otimista, mas a ex-mulher cética com esse tipo de adivinhação, continua dizendo não.

























O que encontramos por trás de um sorriso nem sempre é a felicidade. Nas lides diárias, tive oportunidade de conhecer pessoas alegres, c...

O que encontramos por trás de um sorriso nem sempre é a felicidade.

Nas lides diárias, tive oportunidade de conhecer pessoas alegres, com humor aguçado, alto astral, porém, muitas delas infelizes. Aquele sorriso habitual, suas gentilezas escondiam personalidades frágeis, outrora, fortes, com bloqueio de transmissão na sua realidade íntima.

Casos freqüentes estão pelas ruas, nos mercados, farmácias, padarias, açougues e outros ambientes.

Dias atrás presenciei um fato que me prendeu atenção. Crianças discutindo sonhos. Uma delas afirmava que o seu maior sonho era conhecer a Disney. 

Alimentando-me do exemplo “Disney” assistimos crianças brincando, com alegrias contagiantes nos parques maravilhosos de Orlando/Flórida/EUA. 

Fazendo um paralelo em raciocínio conseguimos perceber que a alegria está diante falsos movimentos de realização da “tristeza”.

Estão vivos nestes ambientes, personagens infantis alegrando sua platéia com danças, sinais, abanos e cortesias. 

O que não paramos para pensar é que o Mickey, aquela típica figura que marcou nossa infância, bem como, a Minnie, Pato Donald e outros, camuflam em seu interior seres humanos, em sua maioria, tristes.

Dentro do Mickey, da Minnie, Pato Donald entre outros estão almas cansadas, oprimidas, repletas de problemas pessoais. São seres humanos enfrentando a vida como nós; contratados, muitas vezes, com salários incompatíveis aos sofrimentos que se submetem. 

Ali estão pessoas pré-destinadas a transmitir formas diversas de alegrias àqueles que imperceptivelmente não os notam e devido à sua inflexível necessidade, ali permanecem. 

Este é um trabalho desempenhado por pessoas que jamais terão seu mister reconhecido, sequer valorizado, por melhor que tenham sido ou feito. Pessoas invisíveis à realidade. 

O interior da fantasia, aquele meio sombrio, abafado, com pouca visão, vive um corpo suado, cansado, exausto, triste. Triste por estarem a quilômetros de distância da família, dos filhos, longe de suas mães, dos pais. Este é o lugar onde a “criança chora e ninguém ouve”.

Será que estes seres-humanos de alguma forma serão lembrados algum dia? Impossível aos olhos daqueles que desfrutaram do seu abraço e sua dança, mas, não impossível aos olhos de sua história vivida e aos olhos de Deus que presenciaram por centenas de vezes, suas gingas aos prantos de dor e lágrimas escondidas no “subliminar” de uma fantasia, seu ergástulo atual.


Advogado



Esse artigo foi publicado em junho de 2015 no jornal O Estado de Mato Grosso do Sul. Relendo-o, considero que o tempo ainda não alterou ...



Esse artigo foi publicado em junho de 2015 no jornal O Estado de Mato Grosso do Sul. Relendo-o, considero que o tempo ainda não alterou sua validade. Por isso, vou publicá-lo no Blog para avaliar mais tarde se ele resistiu ao tempo. 

um debate oco no Brasil sobre o ressurgimento da direita na formação da opinião pública intelectualizada. Compreende-se. A ditadura criou uma intensa polarização de pensamento e posições políticas que deixou como herança, até os dias atuais, modelos consolidados de ranço ideológico. 

Diferentemente de alguns, ainda considero que a díade criada na revolução francesa (esquerda e direita) ainda tem validade como nota explicativa de posições que assumimos perante fatos da vida.

Não que sirva para todas as posições que adotamos em relação a isso ou aquilo, mas reconheço nesta categorização uma forma definidora daquilo que somos quando instados a tomar posições públicas em relação a acontecimentos humanos de repercussão social. Claro que no fundo essa divisão tem uma vacância assombrosa e alguns prefiram dividir os homens e mulheres entre conservadores e progressistas, mas no fundo é tudo uma questão de gosto.

Muitos justificam que essa divisão ideológica não tem mais sentido no mundo moderno. Estes conceitos foram perdidos diante da confusão mental criada após a queda do Muro de Berlim, quando o socialismo dito real sucumbiu com a realidade esmagadora da mercantilização da existência.

Criou-se o truísmo de que a democracia só seria possível com as liberdades proporcionadas pelo capitalismo e que as massas seriam mais felizes com a realização de seus desejos pelo consumismo conspícuo do que com a libertação de seus grilhões patronais. A esquerda brasileira até hoje não compreendeu perfeitamente esse dilema, mas quem sabe um dia...

A partir daí, com a perda referencial de Marx e a ascensão de pensadores como Hayek, as amarras do politicamente correto foram desatadas e, com isso, a esquerda passou a ser maltratada por correntes de pensamento mais ativas no campo do uso da polêmica como força retórica.

Assim, a intelectualidade formada na luta contra a ditadura - e seus rebentos das ciências sociais ligados ao petismo universitário - viu-se atingida no flanco, sem saber o que fazer com vozes dissonantes que davam enfoques diferentes no tratamento de assuntos de amplitude política e social. 

Viu-se de repente que nem tudo era determinismo econômico. Havia mais coisa além de Gramsci e das teorias revolucionárias cubanas.

Por esperteza e oportunismo, diante do argumento de que nesse novo mundo não “existe mais direita e esquerda”, essa turma fez a dobra dialética e começou a afirmar que somente a direita utiliza esse tipo de desqualificação ideológica para se livrar da pecha do conservadorismo. 

No momento vive-se este esforço: como classificar correntes de opinião fortemente amparadas pelo conhecimento histórico, com lastros refinados de cultura clássica, com amplo apuro estético e filosófico, que se dedicam a desmistificar a chamada “esquerda” de boutique de nossos dias?

Daí a tentativa desesperada de rotular esse pessoal de “direitista” quando, na verdade, o que se constata é uma inédita dificuldade de classificação de pessoas que, cada vez com maior influência na mídia, descobriram que podem fazer sucesso de público e de crítica detonando os cacoetes da “velha esquerda”. São os casos de polemistas como Reinaldo Azevedo, Luis Felipe Pondé, Demétrio Magnoli, Olavo de Carvalho dentre outros.

Talvez o que se está querendo mostrar é que a realidade “moderna” está a exigir outro tipo de coerência e outro tipo de compromisso conceitual. Nesta cacofonia geral de pensamentos fora dos modelos tradicionais existem cada vez mais posições estranhas misturando-se ao sabor de fatos e acontecimentos altamente estilhaçados. 

Certamente, os sentimentos à direita e à esquerda estão presentes em todos nós, mas são cada vez mais diluídos, pois está claro que o conceito de liberdade de expressão vem criando uma espécie de domínio – para o bem e para o mal – que faz com que que tudo que é sólido desmanche no ar.




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